sábado, 3 de dezembro de 2016

JUAZEIRO DO MEU TEMPO: WALTER BARBOSA, PAIXÃO POR JUAZEIRO - POR JOTA ALCIDES

Quem é um grande homem? O genial filósofo francês, Albert Camus, dá a pista: "A grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana". Como fundador e presidente da Associação Juazeirense de Imprensa(AJI), desde 1965, ele batalhou, incansavelmente, pelo reconhecimento e pela valorização do papel da mídia na defesa e promoção dos interesses, das causas e aspirações do povo de Juazeiro do Norte. Fez da AJI uma trincheira própria para sua realização como jornalista combatente e combativo sempre empunhando a bandeira azul-amarelo do Juazeiro. Em permanente estado de alerta e de plantão na presidência da AJI, passou a ser respeitado, admirado e consultado em todas as questões onde apareciam em jogo os interesses do Juazeiro porque, para ele, Juazeiro estava sempre em primeiro lugar. Valente, determinado, dinâmico e vibrante, assim era Walter Barbosa, jornalista, radialista, advogado, contador, professor, escritor e sobretudo defensor ardoroso do Juazeiro. Não era poeta, nem cantor, mas tudo que fazia tinha o mesmo sentimento de Casimiro de Abreu, seu poeta preferido: "Todos cantam sua terra, também vou cantar a minha". Foi com esse espírito que Walter Barbosa escreveu belas páginas de intensa atuação em favor da cidade no Juazeiro do Meu Tempo, anos finais da década de 1960. Ganhou fama e prestígio como jornalista e intelectual, mas sua popularidade se expandiu com raízes profundas da árvore da caridade que plantou para dar sombra, conforto e esperança aos mais humildes e mais carentes. Além da AJI, Walter Barbosa presidiu várias instituições sociais, educativas, culturais e classistas, destacando-se: Sociedade de Amparo aos Mendigos, União Contabilista Juazeirense, Associação dos Empregados no Comércio de Juazeiro do Norte, Rotary Club e Fundação José Barbosa dos Santos, sendo também Venerável da Loja Maçônica Evolução Nordestina. Ex-estudante do Colégio Salesiano do Juazeiro, Walter Barbosa, extrovertido e expansivo, não parecia religioso mas era uma espécie de filósofo cristão, apologista das três virtudes teologais, fé, esperança e caridade, conforme se depreende de alguns dos seus pensamentos colecionados pelo escritor e historiador Raimundo Araújo; Como professor, gostava de alertar seus alunos para o lado transcendental da vida:. "Sem Deus você não será nada. Deus foi quem lhe deu a vida e vem lhe mostrando todo dia sua vontade em ajudá-lo. Seja amigo de Deus, sendo amigo das pessoas".Quanto à caridade, incluía nela a atenção devida aos mais idosos. "É preciso ter paciência e caridade para com os velhos. Um dia nós chegaremos também a envelhecer e precisaremos da paciência e caridade dos outros".Com seu espírito religioso,era mais do que um devoto do Padre Cícero, aproveitando as chances que tinha para exaltá-lo "O Padre Cícero é um santo. O que ele sofreu sem reclamar e o que fez de bom na terra, mostra sua grandeza de coração e espírito".Seguindo o exemplo do Padre Cícero, Walter Barbosa tinha uma visão própria do sofrimento: "Quando estiver sofrendo, não se desespere. Existe um Deus tão bom que estará ao seu lado para encorajá-lo. O sofrimento aprimora o coração e purifica a alma.Posso agora medir quanto o sofrimento me aproximou de Deus. Minha vida mudou muito". Que sofrimento foi esse? Apesar de ter uma vida agitada, com inúmeras atividades vistas e admiradas por todos, poucos sabem que ele sofreu durante muitos anos de distúrbio cerebral gerador de convulsões. Sofreu muito com ataques inesperados, traiçoeiros e incontroláveis. Certa vez, ia atravessando a Praça Padre Cícero, à noite, quando teve um ataque em frente a estátua do Padim. Caiu e ficou se debatendo. Casualmente, estava no local, num banco da praça, seu irmão, o cronista Menezes Barbosa. Sabedor do problema, o cronista foi imediatamente acudi-lo. Quando acalmou e acordou, Walter, desnorteado, perguntou o que tinha acontecido. E ouviu de Menezes Barbosa palavras de compreensão, solidariedade, fraternidade e carinho: "Foi nada não, meu irmão. Foi apenas uma topada. Já passou, vamos pra casa". Depois disso, fez tratamento em São Paulo e melhorou. Mesmo com todo ao limites dessa enfermidade, Walter Barbosa era um gigante em intensa atividade, sem parar. Na Cultura, Walter Barbosa foi o maior incentivador no Juazeiro dos grupos de folguedos regionais e tradicionais do Cariri. Sob sua liderança, os grupos de bandas cabaçais, dançadores de coco e maneiro-pau do Juazeiro, representantes das danças singelas de índios e caboclos, desde tempos imemoriais, deram show e fizeram o maior sucesso no 1º Festival de Folclore do Ceará, realizado em Fortaleza em 1965. Foi a maior demonstração de vitalidade do folclore do Juazeiro Embora desenvolvesse intensas ações nos campos da assistência social, educação, radiofonia e cultura, foi nessa época de ouro do rádio no Cariri, que Walter Barbosa se consagrou como radialista. Comandou um dos programas de maior audiência na história do rádio caririense; "Delegacia das Lamentações", na Rádio Progresso do Juazeiro, que tinha como trilha sonora a linda música African Beat, com a maravilhosa orquestra de Bert Kaempfert, Um dia, sai caminhando da casa de minha tia Leonildes Lima, no final da rua Santa Luzia, no bairro de São Miguel, até o centro, indo para a emissora. Fiquei impressionado. Dentro das casas, de cada dez, seis estavam ligadas na Progresso, ouvindo a Delegacia das  Lamentações e quatro ligadas na Rádio Iracema, ouvindo Xexéu e Cajarana, com Alceli Sobreira e Assis Ferreira(Escurinho). Obviamente, o programa do Xexéu já tinha alguns anos e uma audiência consolidada. Mas agora enfrentava um concorrente de peso que estava lhe tirando gorda fatia do bolo de audiência: 60%, um número altamente expressivo. "Delegacia das Lamentações" era um programa de linguagem policial, mas de diversão inocente, sem a baixaria verborrágica dos programas policiais da atualidade. Walter fazia o papel do severo Delegado 70, dando respostas e decisões sobre lamentações e reclamações dos ouvintes apresentadas por Leofredo Pereira, no papel de Cabo Corrijo. Ao relatar as lamentações e reclamações, o Cabo Corrijo acabava se metendo em situações hilárias, recebendo corretivos do Delegado 70. Foi um programa que conquistou o Cariri e ainda hoje é lembrado com muita saudade. Até pedem a sua volta. Walter Barbosa, nascido em 6 de novembro de 1929, filho de José Barbosa dos Santos e Francisca Menezes Barbosa, teve oito irmãos:Geraldo Barbosa, João Barbosa, Zezinho Barbosa, Terezinha Barbosa, Ana Maria Barbosa, Maria Ivone Barbosa e Maria Felicidade Barbosa.Seguiu o exemplo do pai com prole numerosa: teve também nove filhos, sete do seu primeiro casamento com Maria Edite Figueiredo Barbosa,e mais dois do. segundo casamento, com Terezinha de Fátima Figueiredo Barbosa. Como jornalista, foi também correspondente no Juazeiro do Correio do Ceará, então o segundo mais importante jornal do Ceará Como escritor, deixou três livros: "Folclore Juazeirense" "Roteiro Turístico de Juazeiro do Norte" e "Padre Cicero, pessoas, fotos e fatos" . Como professor, tinha a mesma crença do educador Paulo Freire: "Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão". Assim, Walter Barbosa fez-se mais forte que sua condição humana. Brilhou intensamente na constelação da geração romântica do Juazeiro do Meu Tempo. Morreu em 1º de julho de 1991, num hospital em Fortaleza. Se vivo fosse, talvez não cantasse mais sua terra como Casimiro de Abreu cantou sua Barra de São João (RJ). Certamente, hoje, vendo Juazeiro nas mãos de aventureiros, oportunistas, inescrupulosos, hipócritas, mercenários, vendilhões e venais, morreria de vergonha, tristeza e desgosto. Walter Barbosa entendeu o enigma da existência e fez sua própria história dentro da história do Juazeiro. Ele amava Juazeiro. ardorosamente, plenamente, fervorosamente, romanticamente, apaixonadamente! .

*Jota Alcides, jornalista e escritor, é autor de "PRA-8 O Rádio no Brasil" e "O Recife, Berço Brasílico"-

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

JUAZEIRO DO MEU TEMPO. FRANCISCO SILVA, FOGUINHO: O PEQUENO GIGANTE - POR JOTA ALCIDES

"Muitos homens devem a grandeza de suas vidas aos obstáculos que tiveram que vencer".Este pensamento do filósofo britânico Charles Haddon Spurgeon, cai como uma luva no personagem agora focado dentro da série Juazeiro do Meu Tempo. Foi uma batalha feroz a sua vida. Desde o nascimento, uma história de superação. Filho de família pobre, nasceu em 04 de novembro de 1944,apresentando sinais de uma das formas mais brandas de nanismo, o chamado nanismo primordial. Segundo a Medicina, é uma forma de nanismo expresso por um tamanho corporal menor em todos os estágios da vida, estatura e peso bem abaixo da média, mas com crescimento proporcional..É preocupante sobretudo nos primeiros dias e meses de vida. Seus pais, Joaquim Cassimiro da Silva e Maria Lindalva da Conceição, tiveram muito trabalho para salvá-lo. Era morre-não morre. Colocaram várias vezes vela nas suas mãos, costume sertanejo nessas horas de aflição, apostando na fé e na esperança. Escapou. Menino, cresceu pouco, ficou pequeno de estatura, mas, felizmente, cresceu sem atrofias, sem anomalias, cresceu proporcionalmente. Aos 14 anos já estava trabalhando como contínuo na Rádio Iracema do Juazeiro. Franzino e baixinho, tinha uma qualidade logo observada pelo diretor da emissora, mestre Coelho Alves: agilidade, super-rápido ao fazer os mandados. Deu-lhe novas funções. a de cobrador e em seguida a de controlista. "Esse menino é fogo", justificou,ressaltando a rapidez do auxiliar como se fosse uma chama, mas teve a imediata correção de sua secretária, dona Irene: "Fogo não, Foguinho". Surgiu assim o apelido de Francisco de Assis Silva, que se tornaria um dos melhores narradores esportivos do Ceará. Esperto, inteligente, disciplinado e otimista, aprendeu a ler e a escrever dentro da própria emissora com a generosa assistência de dona Irene. Era 1958, ano da Copa do Mundo na Suécia. Chefe de Esportes da Rádio Iracema, Dário Maia Coimbra providenciava a transmissão dos jogos pela Rádio Bandeirantes de São Paulo. Foguinho acompanhava tudo com entusiasmo. Segundo Luiz Carlos de Lima, seu amigo e companheiro de muitos anos, Foguinho "vibrava mais com as narrações de Edson Leite e Pedro Luiz do que com as vitorias do Brasil de Pelé e Garrincha". Foi aí que começou a sonhar em ser locutor esportivo. Em 1962, José Boaventura, novo diretor de esportes e comentarista esportivo da Rádio Iracema, decidiu treinar candidatos para locutor esportivo, porque o titular Dalton Medeiros, funcionário do Banco do Brasil, já planejava encerrar a atividade extra de locutor. Increveram-se Foguinho, controlista, e Luiz Carlos de Lima,que já atuava como repórter. Coelho Alves, com sua experiência também de locutor esportivo, e o próprio Dalton Medeiros davam as aulas técnicas e as aulas práticas aconteciam todos os dias com simulação de narração nos treinos de equipes locais no antigo campo da LDJ. Em plena euforia da conquista do Campeonato Mundial pelo Brasil, na Suécia, Foguinho e Luiz Carlos foram aprovados. Foguinho ficou como titular, porque já tinha registro na emissora, e Luiz Carlos como locutor reserva. Em 1965, Foguinho casou com Lúcia Tavares da Silva e deixou Juazeiro contratado pela Emissora Rural de Petrolina, Pernambuco. Com a transferência de Foguinho, Luiz Carlos assumiu como narrador-titular da Rádio Iracema. Já Foguinho, depois de anos de sucesso em Petrolina, foi convidado pela Rádio Cultura da Bahia, ZYN-30, em Salvador, que tinha excelente equipe esportiva, onde se destacavam os comentaristas José Athayde e França Teixeira, este conhecido nacionalmente nos anos 1960 por seu bordão: "É ferro na boneca, minha cara e nobre família baiana" . Na Rádio Cultura, no ar desde 1950 e líder de audiência no Estado, sobretudo com sua "Resenha do Meio Dia", Foguinho transmitiu campeonatos regionais, Brasileirão, Copa do Brasil, Libertadores da América e até a Copa do Mundo. Conforme Luiz Carlos, "foi a fase mais intensa e mais importante de sua carreira". Depois de Lourival Marques, Alceli Sobreira e Carlucio Pereira, era o quarto nome valor-exportação do rádio juazeirense para capitais. Aliás, com seu jeito cativante, Foguinho conseguiu superar muitas dificuldades na conquista de patrocinadores para cobrir como cobriu sete Copas do Mundo: Espanha (1982), México (1886), Itália (1990), Estados Unidos (1994), França (1998), Alemanha (2006) e África do Sul (2010). Em 2014, quando estive no Recife lançando meu 13º livro, "Mestre da Bola no Ar", com a trajetória de sucesso de Luiz Cavalcante, "o comentarista da palavra abalizada", ícone da radiofonia brasileira, dei uma entrevista ao comentarista Ralf de Carvalho, outro dos melhores do Brasil, em seu programa no Rádio Jornal do Commércio.Quando falei do Juazeiro do Meu Tempo, revelou: "Conheci Foguinho em 1998 na Copa da França. Baixinho, magrinho, parecendo um menino, mas excelente narrador e uma figura divertidíssima cheia de histórias e causos. Tiramos umas fotos e ficamos amigos". Eu não tive convivência com Foguinho cheguei à Rádio Progresso do Juazeiro, ele já estava na Emissora Rural de Petrolina, e quando ele voltou para Juazeiro, contratado pela Rádio Progresso, eu já estava trabalhando e estudando no Recife como acadêmico de Jornalismo. Por isso, tive com ele apenas contatos esporádicos durante suas visitas ao Juazeiro., ou depois nas minhas visitas ao Juazeiro. Mas, esses poucos contatos deram-me a percepção exata de que era um cara simples, humilde, honesto, dinâmico, divertido, voluntarioso , determinado, batalhador, alucinado por futebol e e apaixonado pelo radio. "Para ele, um domingo sem futebol era um domingo perdido", lembra o jornalista Demontier Tenório, que trabalhou com Foguinho durante muitos anos e deve ao amigo uma de suas maiores felicidades na carreira: fazer parte do radio esportivo, atuando já há alguns anos como comentarista na radio Vale FM do Juazeiro.. No seu livro "Foguinho Vida e Obra" narrando sua história e suas conquistas, ele ressalta que.as dificuldades enfrentadas na vida eram apenas desafios e não barreiras intransponíveis. Daí, seu agradecimento sempre renovado ao Coelho Alves e ao José Boaventura pela maior alegria que lhe deram na vida colocando-o dentro do rádio. Seu amigo e companheiro de muitas jornadas, Wilton Bezerra, ex-Rádio Progresso, hoje na Rádio Verdes Mares de Fortaleza, nunca esquece uma aventura de superação ao lado de Foguinho: embrenharam-se no meio do mato, em Afogados da Ingazeira, Pernambuco, sob chuva torrencial, trovões e riscos de raios, para consertar uma linha de transmissão danificada pelo aguaceiro e poder irradiar para o Ceará as emoções de um jogo. Em situações como essa, Foguinho surpreendia se divertindo com piadas sobre si mesmo. "Pelo meu tamanho me chamam lenhador de Bonsai"(árvore japonesa em miniaura). Para Foguinho, superar o fácil não tinha mérito, era obrigação; vencer o difícil era glorificante; e ultrapassar o que até então parecia impossivel era esplendoroso. Por isso, com base na sua experiência real de vida,marcada por desafios e superação, sempre confiando na proteção de Deus, Foguinho gostava de encerrar suas transmissões com um bordão de fé e esperança: "Se eu voltar, Deus estará comigo. Se eu não voltar, eu estarei com Deus." Depois de 50 anos dedicados ao rádio esportivo, Foguinho morreu em 15 de julho de 2014. Seu coração parou de bater, mas sua chama não se apagou na memória da radiofonia e da torcida do Cariri. De acordo com o jornalista e historiador Daniel Walker, Foguinho foi "o narrador esportivo juazeirense que alcançou esportivo mundial, sendo detentor do maior número de transmissões esportivas fora do Brasil, incluindo aí jogos disputados pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Até hoje em Juazeiro ninguém foi mais longe do que ele. E isso não é glória somente para ele, mas também para Juazeiro do Norte, cidade que é um verdadeiro celeiro de celebridades esportivas". Foguinho foi, realmente, um Pequeno Gigante, um Pequeno Notável, que virou um figura lendária da radiofonia carririense. Daria até um filme de Steven Spielberg, cheio de superação, emoção e comoção..

*Jota Alcides, jornalista e escritor, é autor de "PRA-8 O Rádio no Brasil" e "O Recife, Berço Brasílico"-

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

JUAZEIRO DO MEU TEMPO: CHEGADA DA TELEVISÃO -POR JOTA ALCIDES

Foto  TV Jornal-Recife - Anos 60

Desde que deixou de pertencer a Pernambuco passando a fazer parte da geografia do Ceará, em 1799, até anos finais da década de 1960, portanto 161 anos, o Cariri sobreviveu praticamente abandonado pelos seguidos Governos do Ceará e Juazeiro, além de abandonado, perseguido pelos Governos do Estado, pela Igreja Católica e pela mídia de Fortaleza. por causa dp chamado Milagre da Hóstia em 1889. Culpa do segundo bispo do Ceará,autoritário e arbitrário Joaquim Vieira. Suas diabólicas cartas pastorais, cheias de mentiras, injúrias e calúnias, condenando veementemene Juazeiro, Padre Cícero, Beata Maria de Araújo e o propalado milagre, lidas nas missas de domingo em todas as igrejas do Ceará, criaram no Governo do Estado, na Igreja toda e na mídia,um espírito belicoso contra Juazeiro.Até uma guerra houve em 1914, promovida pelo governador Franco Rabelo que mandou 1 mil militares armados ao Cariri para destruir Juazeiro e matar Padre Cícero. Com a reação de milhares de romeiros do Nordeste, o governador perdeu a guerra e foi deposto. Desde então, o Ceará é indisposto com Juazeiro. Governos entram e saem e nada fazem por Juazeiro. Talvez as únicas exceções tenham sido o Governador Virgilio Távora, que ajudou um pouco o prefeito Humberto Bezerra e o Governador Plácido Castelo, que ajudou um pouco o prefeito Mauro Sampaio. Dos mais recentes, entretanto, Ciro Gomes e Cid Gomes foram uma tragédia. Agiram como verdadeiros inimigos do Juazeiro. Fizeram obras com aparência de bemfeitorias para enganar Juazeiro, mas que, na verdade, são malfeitorias, como o Metrô do Cariri e o Hospital Regional, incompatíveis com as reais necessidades juazeirenses. Até o Juazeiro do Meu Tempo, o resultado dessa omissão e dessa discriminação contra Juazeiro era bastante visível, inclusive nas vias de comunicação. Ligação rodoviária Juazeiro-Fortaleza era feita pela empresa Expresso de Luxo, de expresso e de luxo só no nome, por estrada de barro cheia de buracos e poeirenta, enquanto a ligação rodoviária Juazeiro-Recife era feita pela Auto Viação Princesa do Agreste, em dois ônibus diários, um de dia e outro à noite, por asfalto até o Recife. Na falta ainda de uma Estação Rodoviária, só inaugurada em 1972, os ônibus interestaduais faziam terminal de embarque e desembarque junto aos escritórios de suas agências. O da Princesa do Agreste ficava na Rua São Francisco, em frente à Praça Padre Cícero. Como reação ao desprezo de Fortaleza, Juazeiro passou a ter um intenso trafego econômico e cultural com Recife. O ônibus para o Recife saia de Crato com dois ou três passageiros e quando chegava no Juazeiro enchia. O que saia do Recife para o terminal de Crato, quando chegava no Juazeiro esvaziava e nele ficavam doisou três passageiros para Crato. Juazeiro liderava o relacionamento do Cariri com Recife. Isso pesou na hora de implantação de outra via de comunicação,: a televisão. Nessa época, o radio de Fortaleza chegava com precariedade ao Cariri. As duas únicas emissoras de ondas curtas da capital, Ceará Rádio Clube e Rádio Dragão do Mar não conseguiam ter boa recepção no Juazeiro, mas as duas maiores emissoras do Recife, Radio Jornal do Commércio, Pernambuco falando para o Mundo, e Rádio Clube dePernambuco, emissora pioneira na América Latina, chegavam ao Juazeiro estourando, com som local.Ambas tinham grande audiência no Juazeiro, sobretudo dos programas esportivos. O Ceará já tinha televisão, mas não demonstrava o menor interesse em estender seu sinal até Juazeiro onde chegava com as imagens fantasmas caindo ou então "chuviscando", uma porcaria. Depois de várias experiências técnicas em 1965, iniciadas pelos entusiasmados juazeirenses Luiz Casimiro e Luiz de França, finalmente ao final desse ano, sob a orientação do técnico pernambucano Geraldo Aureliano, foi instalada no topo da colina do Horto, com apoio do prefeito Humberto Bezerra, uma torre repetidora da TV Jornal do Commércio, do Recife. Foi recebida com vibração pelo povo do Juazeiro, mas o povo do vizinho Crato não gostou porque, via repetidora, tecnicamente, a televisão do Recife atingiria somente Juazeiro, Barbalha, Missão Velha, Brejo Santo e Caririaçu, não beneficiando Crato que, tecnicamente, teria de ter sua própria repetidora. Então a maior e mais moderna televisão do Brasil, com seu edifício de acabamento em mármore, granito, cerâmica e esquadrias de alumínio, o Canal 2 do Recife tinha uma torre de 138 metros de altura, equipamentos todos importados da Europa, três estúdios e um auditório para 460 pessoas. Empreendimento mais do que arrojado para a época, A TV Jornal do Commércio nasceu assim grandiosa suplantando as grandes televisões que já existiam no Sul (Tupi, Record ). Produzia a sua própria programação, incluindo novelas. Juazeiro adorava ver os programas de auditório do Canal 2 do Recife sempre com muito luxo, desde os cenários às roupas dos artistas e do público, tudo cercado do maior glamour. E assim a televisão chegou ao Juazeiro. Como havia pouquíssimos televisores nas residências do Juazeiro, nas principais lojas comerciais da Rua São Pedro, no centro, como Aliança de Ouro, Armazém Feijó, Simpatia, Casa Alencar, Centro Elétrico, eles ficavam ligados até tarde da noite quando o sinal era bem melhor do que à tarde. Juazeiro passou a ver os mesmos programas de grande audiência vistos pelo Recife na TV Jornal do Commércio. Os mais famosos deles, "Você Faz o Show", com Fernando Castelão, show de variedades aos domingos à noite, Bossa 2, sob o comando de José Maria, programa essencialmente musical sobretudo de Jovem Guarda, domingos à tarde, e "Noite de Black Tie", com Luis Geraldo, show de arte, cultura e elegância da sociedade pernambucana, sábados à noite.Os juazeirenses ficavam fascinados por "Noite de Black Tie" pelo espetáculo de moda, arte e sofisticação simbolizando a força do Recife como centro do poder econômico e cultural do Nordeste brasileiro. Parecia uma festa de gala O próprio dono da emissora, empresário e senador F. Pessoa de Queiroz fazia questão de assistir e aplaudir o programa na primeira fila do auditório. Eu pessoalmente gostava de ver, no Juazeiro, o "Repórter Esso", com Édson de Almeida, e "Show de Notícias" com sete apresentadores (cinco homens e duas mulheres) exibindo um jornal abrangente, versátil e competitivo durante 25 minutos Fazia parte desse show, um desenhista que produzia caricaturas dos entrevistados enquanto eles davam entrevistas. Com isso, aumentou ainda mais o fascínio e a influência do Recife sobre Juazeiro que permanecem até os dias de hoje. Curiosamente, no , mercado de profissionais de saúde no Juazeiro, os anúncios publicitários radiofônicos de médicos com seus consultórios e clínicas, em sua maioria, trazem a especialidade de atendimento de cada um com essa informação adicional: "Formado pela Universidade Federal de Pernambuco". É uma indicação que, além de revelar o diferencial de valor de Pernambuco sobre o Ceará, funciona como selo de garantia de qualidade que simboliza a importância do Recife no conceito dos juazeirenses fortalecendo e ampliando o relacionamento entre as duas cidades que são ligadas atualmente por três vôos diários diretos. Ainda nesse quesito médico, inexistem anúncios radiofônicos semelhantes de médicos formados pela Universidade Federal do Ceará, certamente porque não agregam valor no julgamento da gente do Juazeiro. Pelos estudos existentes sobre a influência dos macropolos metropolitanos, nas diversas regiões do Brasil, São Paulo é o macropolo nacional do Juazeiro, pois é a metrópole com quem Juazeiro mantém o maior tráfego comercial exigindo também vôos diretos diários entre as duas cidades. Mas, o macropolo regional do Juazeiro é o Recife e não Fortaleza, que é apenas capital política e administrativa vista com restrições pois não dedica a devida atenção ao Juazeiro. Com dois canais de televisão hoje,TV Verde Vale e TV Verdes Mares-Cariri, Juazeiro não precisa mais da televisão do Recife. Mas, quando Juazeiro quer novidades na economia, na cultura, na educação, na ciência na tecnologia e no turismo corre para o Recife. E vai continuar sendo assim até o dia em que o Governo do Ceará, a Igreja Católica e a mídia de Fortaleza abandonarem a cartilha do famigerado e truculento bispo Joaquim Vieira, que infernizou a vida do Padre Cícero junto ao Vaticano, encerrarem a odiosa discriminação e passarem a dar ao Juazeiro o tratamento que merece como Cidade que mais cresce no Ceará e Metrópole do Cariri. Como não tem do Ceará o que merece, mesmo após 217 anos de separação do Cariri de Pernambuco, Juazeiro permanece com o espírito pernambucano, o espírito altivo de Leão do Norte, e atraído pelo glamour da bela Veneza Americana..

*Jota Alcides, jornalista e escritor, é autor de "PRA-8 O Rádio no Brasil" e "O Recife, Berço Brasílico"-

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

JUAZEIRO DO MEU TEMPO. RALPH DELLA CAVA:OBRA MONUMENTAL - Por Jota alcides

Quem nos ensina é Cícero, não o padre Romão Batista, mas o orador romano Marcus Tullius((106-43 a.C), um dos maiores escritores da Roma antiga: "O historiador deve adotar um grau de imparcialidade, relatando os fatos como aconteceram, sem colocar as suas convicções acima de tudo".Ele reforça o pensamento de Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), um dos maiores filósofos da Grécia Antiga:: "O talento do historiador consiste em compor um conjunto verdadeiro com elementos que são verdadeiros apenas pela metade". Conhecido como Meca do Cariri até 1970, Juazeiro do Norte deu um salto de qualidade nos anos dourados de 1960. Foi um salto não apenas no seus aspectos urbanístico, social, político, econômico e cultural. Deu um salto de qualidade também no seu perfil histórico que passou a exibir ao Brasil e à comunidade internacional um novo Juazeiro. Até então a história do Juazeiro era marcada pelo maniqueísmo. Para os adeptos da escola religiosa, sincrética e dualista de Maniqueu, filósofo cristão do século III, Juazeiro ou era uma história do reino da luz, sob a influência extraordinária do extraordinário Padre Cícero, venerado como Taumaturgo do Nordeste, ou era uma história do reino das sombras sob influência do mesmo Padre Cícero, acusado de heresiarca do sertão. Era assim mesmo: de um lado, apologistas do Padre Cicero; do outro, difamadores do Padre Cícero. Muitos escritores famosos no Brasil, como Rui Barbosa, Euclides da Cunha, Lourenço Filho, Otacilio Anselmo, Edmar Morel e padre Antonio Gomes massacraram Padre Cícero e Juazeiro fazendo eco ao discurso autoritário, arbitrário e tendencioso do segundo bispo do Ceará, dom Joaquim Vieira, principal algoz do capelão do Juazeiro desde o chamado Milagre da Hóstia, em 1889.As pastorais diabólicas desse bispo, presunçoso e inescrupuloso, cheias de injúrias, calúnias e difamações, lidas nas missas de domingo em todas as igrejas do Ceará, germinaram e produziram uma sólida aversão, ainda persistente, de toda a Igreja no Estado, dos Governos cearenses, da mídia de Fortaleza e de todo o povo cearense ao Juazeiro e ao Padre Cícero.Comprova isso um fato estatístico ao longo do último século: não há cearenses entre os milhões de romeiros que visitam Juazeiro em homenagem ao Padre Cícero. Omo aconteceu na recente Romaria de Finados, quando Juazeiro recebeu de uma só vez 600 mil romeiros, em sua maioria, cerca de 42% ,pernambucanos, seguidos de alagoanos, paraibanos, potiguares, piauienses e sergipanos. Felizmente, nos anos dourados de 1960, Juazeiro do Meu Tempo estava sendo palco de um estudo científico criterioso, silencioso, paciente, exaustivo e elucidativo, que iria romper a dualidade dessa história. Para reconstituir o passado histórico verdadeiro do Juazeiro, o professor Ralph Della Cava, da Universidade de Colúmbia, Nova Iorque, resolveu morar no Brasil durante 14 anos, concentrando sua pesquisa de campo em Juazeiro do Norte onde residiu com a esposa Olga, companheira de ideais..Seu objetivo: que os motivos e a significação do passado do Juazeiro ficassem claros, evidentes, inteligíveis e desnudados de mitos, fantasias e erros. Era um estudo acadêmico para defesa de sua tese de doutorado em Nova Iorque. Para isso, conseguiu dois apoios sem os quais sua obra não teria sido possível: do diretor do Colégio Salesiano de Juazeiro do Norte, padre Gino Moratelli, então guardião dos arquivos do Padre Cícero preservados no colégio; e do bispo Dom Vicente de Araújo Matos, da Diocese de Crato, onde estavam os arquivos com a visão da Igreja Católica Romana sobre o fenômeno religioso do Juazeiro. Logo descobriu que muitos estudos anteriores estavam divorciados da realidade atribuindo o fenômeno quase exclusivamente à personalidade carismática e messiânica do Padre Cícero ou ao fanatismo religioso de massas incultas de sertanejos. Como o próprio Della Cava interpreta "uma bibliografia bastante sectária, refletindo, no fundo, amargas divergências políticas e religiosas, inspiradas desde 1889, por Padre Cícero e pelo movimento - divergências essas que situam entre as mais acaloradas dos anais da história brasileira". Descobriu também que "os atores e os acontecimentos nos quais o movimento do Juazeiro se originou e se desenvolveu eram partes e parcelas de uma ordem social nacional".,ou ainda que o movimento popular religioso do Juazeiro afetou e foi afetado: pela instituição eclesiástica internacional, a Igreja Católica Apostólica Romana, pelo sistema político nacional do Brasil,imperial e republicano; e por uma economia nacional e internacional em mudança. Ancorado nessa avaliação, Della Cava seguiu determinado e inspirado em Aristóteles, Cícero e também no escritor português Fernando Pessoa, pelo seu alter ego Álvaro de Campos: "O historiador é um homem que põe os fatos nos seus devidos lugares". Com suas numerosas pesquisas e entrevistas e enorme quantidade de dados obtidos em arquivos credenciados, resultado de um trabalho disciplinado e científico concluído no Juazeiro no final dos anos 1960, Della Cava, transformado em grande "Walking Archive " fundamentou e escreveu sua tese de doutorado "Milagre em Joaseiro", que apareceu como livro no Brasil em 1976, até hoje a mais importante obra sobre Padre Cícero e Juazeiro. Sob metodologia científica, Della Cava produziu a verdadeira história do Juazeiro e do Padre Cícero, adotando, rigorosamente, o preceito do escritor, filósofo, teólogo, filólogo e historiador francês. Ernest Renan: "O primeiro dever do historiador é não trair a verdade, não calar a verdade, não ser suspeito de parcialidades ou rancores". Desde então, Padre Cícero do Juazeiro passou a ser alvo de estudos acadêmicos em todas em todos os campos do conhecimento científico. Eu mesmo lancei em 1990 "Padre Cícero, O Poder de Comunicação", o primeiro e o único livro focando exclusivamente a capacidade de comunicação dele entre mais de 300 já existentes na vasta bibliografia sobre o Patriarca do Juazeiro.Assim como o prefeito Mauro Sampaio construiu uma obra arquitetônica grandiosa- a Estátua do Padre Cícero, a segunda maior do Brasil abaixo do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, obra do século XX no Juazeiro, dividindo a história da cidade em antes e depois do monumento, Della Cava produziu uma obra acadêmica científica fantástica - o livro "Milagre em Joaseiro ", dividindo a história do Juazeiro em antes e depois dela. Depois da estátua de Mauro Sampaio, Juazeiro passou a receber maiores multidões de romeiros, chegando hoje aos três milhões por ano, e a cidade virou o maior centro do catolicismo popular da América Latina. Depois do livro de Della Cava, Juazeiro passou a ser referência de estudos científicos nas principais Universidades brasileiras. Della Cava abriu as portas do mundo acadêmico para Juazeiro. E Juazeiro passou a ter uma história dividida em antes e depois de Della Cava. Ate um Simpósio Internacional sobre Padre Cícero vem sendo realizado, desde 1988, no Juazeiro, pela Universidade Regional do Cariri, reunindo, em exposições e debates, teólogos, filósofos, sociólogos, antropólogos, psicólogos, professores, escritores, pesquisadores e outros especialistas nacionais e estrangeiros. Em sua obra, Della Cava não julga Padre Cícero, nem Juazeiro, nem os romeiros. Mas, mostra, detalhadamente, o papel de cada um num cenário político regional e nacional. E exibe, em toda a sua extensão, o drama pessoal do Padre Cícero, entre as pressões e opressões da sua própria Igreja, o ardor e clamor de seus milhares de devotos, e as ingerências e influências do coronelismo político municipal, estadual e nacional. Tempo de insurgências e ressurgências, como diria o maior sociólogo do Brasil, polímata e pantólogo brasileiro de Pernambuco, Gilberto Freyre, formado e pós-graduado na Universidade de Columbia, a mesma de Della Cava. Esse despertar acadêmico, provocado por Della Cava, continua a produzir seus efeitos pois Juazeiro é um centro dinâmico não apenas religioso, mas também demográfico, econômico, social e cultural. É o único centro de romarias do mundo que apresenta desenvolvimento geral, coerente, convergente e influente. Na demografia, Juazeiro é, há mais de um século, a cidade que mais cresce no Ceará, hoje com 270 mil habitantes (IBGE). Na economia, Juazeiro é o terceiro maior pólo da indústria calçadista brasileira (ABIC), exportando calçados para mais de 100 países, incluindo os Estados Unidos, e tem o maior shopping center do interior do Nordeste. Nos transportes, o Aeroporto do Juazeiro, com nove vôos diários e diretos para as principais capitais brasileiras, é o que mais cresce em movimento no Brasil (Infraero). Na educação, Juazeiro é hoje, com seis Universidades.inclusive sede da Universidade Federal do Cariri (UFCA) e 150 cursos superiores, o maior centro universitário do interior do Ceará e um dos mais importantes do Nordeste. Na cultura, Juazeiro é a cidade brasileira onde a população tem mais envolvimento com atividades culturais, segundo pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como resultado de tudo isso, Juazeiro é hoje um dos 72 principais mesopolos de desenvolvimento do Brasil, conforme estudo da Universidade Federal de Minas Gerais, tendo consolidada sua condição de Metrópole do Cariri. Essa notável transformação, ocorrida nos últimos 50 anos, desde os anos dourados da década de 1960, tem a ver menos com a capacidade de gestão do poder público e muito mais com a capacidade de empreendedorismo privado do seu povo, estimulado pelo Padre Cícero com seu lema beneditino "ora et labora". E tem a ver com o despertar das Universidades brasileiras, que passaram a ver Juazeiro com outros olhos, induzidas pela obra científica de Della Cava,gerando mídia nacional positiva para a cidade do Padre Cícero.E quanto mais mídia positiva, mais novos investidores nacionais e multinacionais no Juazeiro, como Walmart e Carrefour, os dois maiores grupos varejistas do mundo.. Além de receber cerca de três milhões de romeiros por ano, Juazeiro é, há mais de um século, a cidade que mais cresce no Ceará em população, em economia, em urbanismo, em educação e cultura. Este é seu grande diferencial: Quanto mais Juazeiro local, mais Juazeiro internacional. Certamente, tudo isso inspirou Della Cava a deixar, temporariamente, Nova Iorque, centro do mundo, para fazer pesquisa no interiorzão da América do Sul e escrever "Milagre em Joaseiro", a verdade histórica sobre Juazeiro, que lhe deve eterna gratidão pela obra edificada - original, magistral, doutoral, monumental. Della Cava cumpriu o fim social do seu saber como queria o saudoso Mestre de Apipucos, Gilberto Freyre: "O saber deve ser como um rio, cujas águas doces, grossas, copiosas, transbordem do indivíduo, e se espraiem, estancando a sede dos outros". Parabéns!

*Jota Alcides, jornalista e escritor, é autor de "Padre Cícero, O poder de Comunicação" e "Comunicação & Linguagem das Massas"-



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

JUAZEIRO DO MEU TEMPO. ALCELI SOBREIRA: O TROVÃO DO RÁDIO

"São Paulo tem cinco estações: Primavera, Verão, Outono, Inverno e Piratininga. Você está ouvindo a PRB-6, Rádio Piratininga, emissora do coração de São Paulo". Com seu vozeirão inconfundível, grave e de alta potência, fenômeno sonoro como um trovão, assim ele anunciava o prefixo da Rádio Piratininga de São Paulo encantando os ouvintes da maior metrópole da América do Sul. Seu nome: Alceli Sobreira, radialista, jornalista, noticiarista, humorista, cronista, disck-jóquei, radioator, animador de auditório, escritor, poeta, professor, poliglota, mestre de cerimônias, autêntico showman. Depois de Lourival Marques,exportado do Juazeiro para a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, no final dos anos 1940, foi o segundo radialista do Juazeiro de qualidade exportação, brilhando num grande centro, no competitivo mercado de São Paulo. Contratado como locutor e jornalista, pela Piratininga, sucessora da Rádio Cruzeiro do Sul, fundada em 1927, exerceu as funções de locutor, noticiarista, secretário de Redação e Redator-Chefe da emissora. A Rádio Piratininga primava pela excelência, segundo depoimento do próprio Alceli: "Foi uma época maravilhosa, onde tive a oportunidade de ampliar os meus conhecimentos jornalísticos em todos os aspectos",Trabalhou também na Rádio Eldorado de São Paulo. Poderia ter-se consagrado nacionalmente como um dos maiores radialistas do Brasil, mas por motivos familiares teve que voltar para sua terra, Juazeiro. Sobre essas mudanças em sua vida, um dia escreveu: "Sonhar não é o bastante. Bom mesmo é trabalhar sempre para ser o melhor. Ser o melhor não é o bastante. Bom mesmo é pensar no amanhã. Ter fé no amanhã não é o bastante. Bom mesmo é ser humilde com os menos favorecidos e ter altivez com os grandes". Foi no Juazeiro que começou sua carreira, em 1952, no Centro Regional de Publicidade (CRP), escolinha de todos, ou quase todos os radialistas da cidade. Deram-lhe oportunidade os então diretores: Dário Maia Coimbra (Darim) e João Menezes Barbosa. Em 1954 ingressou na Rádio Iracema de Juazeiro, estimulado pelo seu amigo Edésio Oliveira e pelo diretor artístico Expedito Cornélio. Na emissora pioneira do Juazeiro, polivalene e versátil, Alceli fez de tudo: locução comercial, rádio-teatro, diskc-jókey, humorismo, rádiojomalismo e animação de auditório, escrevendo e produzindo os mais variados programas..No início dos anos 1960, resolveu se aventurar no mercado de São Paulo. Brilhou na Rádio Piratininga e na Rádio Eldorado de São Paulo, mas teve que voltar logo ao Juazeiro, por razões familiares, e retomou suas atividades na Rádio Iracema do Juazeiro. Um dos programas de sucesso de Alceli Sobreira na Rádio Iracema, foi Coluna da Hora que apresentou com Assis Ferreira (Escurinho), formando a dupla Xexéu e Cajarana. Era um programa humorístico ,de segunda à sexta-feira, ao meio dia, criticando ou elogiando, quando preciso, as ações da administração municipal e também de outras instituições públicas. Ele próprio chegou a relatar: "Eram textos elaborados de acordo com cartas que recebíamos da população, principalmente, de pessoas residentes nos bairros da periferia, referindo-se às dificuldades de cada localidade. Um dos prefeitos da época costumava dizer que Eu (interpretando Xexéu) e Escurinho, fazendo o Cajarana, éramos fiscais da prefeitura, porque mostrávamos os problemas existentes na cidade e, ao mesmo tempo, apresentávamos sugestões, para solucioná-los". Com esse programa ganhou imensa popularidade. Outro programa seu de grande audiência no Juazeiro do Meu Tempo, final dos anos 1960, foi "Parada da Jovem-Guarda" ,toda as tardes,que tinha como trilha sonora "Escreva uma carta meu amor", sucesso de Roberto Carlos. Formado em Contabilidade pela Escola Técnica do Comércio do Juazeiro, fez um pequeno intervalo em sua carreira artística para se dedicar à gestão pública municipal do Juazeiro, assumindo, em 1977, o cargo de Assessor de Imprensa do Prefeito Ailton Gomes e, em seguida, o cargo de Secretário de Finanças do Município. Em 1984, com a morte do Mestre Coelho Alves, assumiu a direção da Rádio Iracema do Juazeiro. Seu último trabalho em rádio foi como Redator-Chefe da Rádio Vale do Cariri,mais potente emissora do Juazeiro. Além das emissoras do Juazeiro e de São Paulo, Alceli Sobreira atuou também na Rádio Difusora de Cajazeiras(PB) e na Rádio Tupinambá de Sobral(CE). Fora do rádio, foi, durante muitos anos, professor de inglês do Colégio Salesiano do Juazeiro e da Escola Técnica do Comércio do Juazeiro. Escreveu os livros, "Folhas ao Vento" e "Breve História da Radiofonia". No caso da radiofonia, Alceli tinha consciência precisa quanto ao papel do radialista que assim definiu em artigo publicado no Diário do Nordeste: "É a ele que cabe a tarefa de bem informar, de divertir, de promover o entrosamento de toda a comunidade, de orientá-la através de um cuidadoso programa de utilidade pública, de promover também a expansão da cultura por intermédio de sua divulgação freqüente, de dirimir dúvidas do ouvinte, e afinal, com tudo isso dando seu entusiástico e imprescindível contributo ao desenvolvimento e progresso de sua terra!". Embora tivesse grande prestigio e elevada popularidade, Alceli Sobreira tinha como marcas de sua personalidade a simplicidade e a humildade. Despojado, vestia-se como lhe convinha, sem ligar para regras, estilos ou padrões de moda. Raramente aparecia de palitó e gravata (preferia o modelo borboleta), somente em solenidades ou cerimônias especiais. Vestia-se modestamente. Mas no comando de programas de auditório, como "A Cidade se Diverte" abria exceção e aparecia com roupas mais ousadas, ternos de estampas quadriculadas ou xadrêz em cores chamativas, talvez com a intenção de passar e gerar alegria. Para alguns, eram roupas extravagantes, mas, na verdade, Alceli adotava a padronagem de moda do príncipe de Gales Albert Edward (1841-1910), Rei Eduardo VII da Grã-Bretanha , que era muito elogiado por sua elegância. .Alceli calçava modestamente. Flagrei-o diversas vezes, chegando ao trabalho na Rádio Iracema, de sandálias japonesas, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Para ele, mais importante do que vestir ou calçar de acordo com a moda, era fazer bem o que sabia fazer, no mais elevado nível de profissionalismo. Aos companheiros mais jovens, quando procurado, sempre tinha um aconselhamento de técnica e de ética no rádio baseado em sua longa experiência. "Quando desejares um pouco de alento, em momentos de incertezas e indecisão que te possam causar mal, por menor que seja, pensa em mim, que te mostrarei o norte para que saibas o caminho a seguir", escreveu. Culto e dono de extrema sensibilidade humana e artística, Alceli tinha o hábito da leitura de grandes autores, elegendo, entre os preferidos, a escritora ucraniana-pernambucana, Clarice Lispector, de quem cultivava esse pensamento como uma jóia da literatura: "A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas". Depois de mais de 55 anos de atividades radiofônicas, Alceli Sobreira morreu em 2009, sem ter anunciado o que muitos juazeirenses gostariam de ter ouvido no vozeirão dele imitando a lendária PRB-6 de São Paulo: "Juazeiro tem cinco estações; Primavera, Verão, Outono, Inverno e Iracema. Você está ouvindo a ZYH 21, Rádio Iracema, emissora do coração do Juazeiro".Foi-se como viveu, poetando: "Meus versos são compostos de forma direta.Frutos duma inspiração que em meu peito arde.Enfim, louvo ao meu Senhor que me fez poeta!.." Alceli Sobreira lembra muito o poeta pernambucano e meu amigo Mauro Mota(1911-1984) , jornalista, professor, cronista, ensaísta e memorialista dos melhores do Brasil, que foi Diretor de Redação do Diário de Pernambuco e membro da Academia Brasileira de Letras. Comparável na sua simplicidade e na sua poesia de fundo simbólico, focando dramas humanos do cotidiano em linguagem natural e coloquial.Grande Alceli Sobreira, um radialista completo, poeta, professor, poliglota, seguro, versátil, ícone da radiofonia caririense com seu vozeirão poderoso e tonitruante, o trovão nas ondas do rádio.!

*Jota Alcides, jornalista e escritor, é autor de "Padre Cícero, O poder de Comunicação" e "Comunicação & Linguagem das Massas"-

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

JUAZEIRO DO MEU TEMPO- DARIM: CRP ESCOLA DO RÁDIO

Mestre da ironia socrática, aquela capaz de demolir orgulho, ignorância e presunção, mas sem sarcasmo pois não era de ofender ninguém, ele tinha habilidade e facilidade para fazer rir com seu enorme repertório de "causos" domésticos, urbanos, políticos, esportivos e históricos.Como nessa referência ao fato ocorrido no Juazeiro em 1926, tempo da Coluna Prestes: "Sabem por que o agrônomo Pedro Uchoa, único servidor do Governo Federal no Juazeiro, no tempo que Lampião, o Rei do Cangaço, veio visitar o Padre Cícero, assinou um documento, sem nenhum valor legal, concedendo a patente de capitão ao bandoleiro Virgulino Ferreira da Silva, o terror dos sertões do Nordeste? Sempre que lhe perguntaram isso, Pedro Uchoa tinha a mesma resposta: "Naquela hora, eu assinava até a demissão do Presidente Artur Bernardes, quanto mais a nomeação de Virgulino". Por isso, Pedro Uchoa ganhou o apelido de Rei do Cangaço, sem o n, naturalmente".(risadas). Foi assim que conheci o bem humorado jornalista, radialista, publicitário, escritor e folclorista Dario Maia Coimbra, o querido Darim, no final de 1967, numa reunião do Lions Clube do Juazeiro, na sede do antigo Treze Atlético Juazeirense. Pouca gente sabe, mas Darim, além de todas as suas atividades, principalmente diretor do Centro Regional de Publicidade-CRP, primeira difusora amplificadora do Juazeiro, era exímio animador do Lions, uma figura responsável pela animação das reuniões do clube com piadas, anedotas e estórias de humor, uma tarefa que Darim cumpria com indisfarçável prazer. Filho da tradicional família Coimbra, do Juazeiro, nascido em 12 de abril de 1932, teve como pais Raimundo Fernandes Coimbra e dona Vicentina Fernandes Maia. Casou em 29 de junho de 1962 com Cícera Silva Coimbra, ex-vereadora do Juazeiro, com quem teve os filhos Dáiro e Polyana. Grande desportista e carnavalesco do Juazeiro, foi membro da Liga Desportiva Juazeirense, e era uma presença marcante nos carnavais de rua e de clubes, um dos maiores foliões do Juazeiro. Brilhou também na década de 50 como jogador de futebol do Treze Atlético Juazeirense e da Seleção do Juazeiro. Mas Darim entrou mesmo para história do Juazeiro como homem de comunicação. Começou sua carreira em 1948 como discotecário e controlista do Centro Regional de Publicidade-CRP, então dirigido pelo seu irmão, Antonio Fernandes Coimbra (Mascote). Depois, virou corretor e redator de anúncios, redator de programação e gerente. Com 22 altofalantes instalados em pontos estratégicos da área central da cidade, o CRP de 1948 já era uma difusora com 10 anos de atividades e devidamente integrada ao desenvolvimento do Juazeiro, como conta o próprio Darim em depoimento ao companheiro Luiz Carlos de Lima para seu livro "Surfando nas Ondas do Rádio": "Estava chegando o final do ano de 1937. A cidade de Juazeiro do Norte continuava a crescer. Notava-se que um órgão de publicidade-comunicação estava faltando para ajudar ao desenvolvimento da Terra do Padre Cícero. E foi assim pensando que Raimundo Gomes de Figueiredo idealizou instalar o Centro Regional de Publicidade que, com a sigla CRP, escreveu seu nome na história de Juazeiro do Norte". E escreveu de forma brilhante, cumprindo uma verdadeira epopéia, porque foi o CRP quem gerou alguns dos maiores nomes da radiofonia juazeirense e caririense. O maior deles, sem dúvida, Lourival Marques, que foi diretor do CRP, de onde saiu em 1943 para a Ceará Rádio Clube, em Fortaleza, e de lá para o Rio de Janeiro, onde se tornou diretor artístico da Rádio Nacional, então a principal emissora do País, líder absoluta de audiência na Era de Ouro do rádio brasileiro. Sobre Lourival, diretor do CRP, disse Darim no mesmo depoimento: '"Criou programas dignos de emissoras de rádio. Homem nascido para o ramo, Lourival lançou os programas "Galo Duro" (perguntas e respostas), por sinal em estilo instrutivo, "Hora do Calouro", "Teatro pelo Microfone" (com a participação da juventude juazeirense), constituindo-se numa verdadeira escola-teatro, "Hora do Guri" e outros. Sua capacidade radiofônica foi logo vista pelos homens da capital, tanto assim que, em pouco tempo, foi chamado para a Ceará Rádio Clube de Fortaleza". Mas, do CRP também saíram: Aderson Brás, locutor e produtor da Ceará Rádio Clube; Coelho Alves, diretor da Rádio Iracema do Juazeiro; Menezes Barbosa, diretor da Rádio Progresso do Juazeiro; Alceli Sobreira, que chegou a brilhar na Rádio Piratininga de São Paulo; João Barbosa, gerente comercial da Rádio Progresso do Juazeiro; Souza Menezes, cronista da Rádio Iracema do Juazeiro; Geraldo Alves, comandante do programa "Discoteca do Fã" na Rádio Iracema do Juazeiro; Geraldo Batista, apresentador do Repórter Cariri na Radio Progresso do Juazeiro; Luiz Carlos de Lima, locutor esportivo da Rádio Iracema do Juazeiro; e o próprio Dário Maia Coimbra, chefe de esportes na primeirad década da Rádio Iracema do Juazeiro. Mais nomes de destaque na radiofonia regional que saíram do CRP: Vilmar Lima,. Erivan Xavier, José Carlos Pimentel, Valmir Lima, Waldir Feitosa, Estevão Rodrigues. Barbosa da Silva, Robson Xavier. O CRP funcionava feito uma autêntica emissora de rádio, com estúdio e pequeno auditório, na rua São Francisco, em frente à Praça Padre Cícero. Foi, na verdade, uma Escola do Radio que colocou dezenas de profissionais nos mercados regional e nacional. Dário Maia Coimbra foi dono e diretor do CRP a partir de 1954, quando Juazeiro já tinha sua primeira emissora, a Rádio Iracema, desde 1951. Na gestão de Darim, o CRP ganhou uma programação mais variada e dinâmica, incluindo noticiosos nacionais e internacionais, crônicas, resenhas esportivas, curiosidades culturais e científicas, seleção musical atualizada e reforço publicitário com o início da propaganda volante.Passou a ser comum ver nas ruas do Juazeiro do Meu Tempo, nos anos finais da década de 1960,a Kombi de Darim, ele próprio dirigindo, com seus altofalantes anunciando as ofertas e promoções de preços baixos das principais lojas comerciais da cidade.Lá vem Darim: "Faça boas compras na Casa Branca, a garça de sua economia". "Beba Cajuína São Geraldo, o melhor refrigerante de caju, um produto genuinamente juazeirense". "Senhora dona de casa, confira o festival de preços baixos d'A Vencedora em ferramentas e utilidades para o lar. Passe n'A Vencedora e saia de lá vencedora em economia". Foi assim que Dário Maia Coimbra fez história com o CRP que ele mesmo chamava "Escolinha do Rádio de Juazeiro do Norte". Existiu e serviu ao desenvolvimento do Juazeiro durante 35 anos até 14 de julho de 1972. Além de diretor do CRP, Darim foi locutor da Rádio Iracema e da Rádio Vale d Cariri,com seu programa "DMC Variedades". Ardoroso defensor do Juazeiro, do qual era ufanista, Darim criou a Semana do Padre Cícero, que é celebrada todos os anos no mês de março. Ex-vereador do Juazeiro(1966), Darim morreu em 22 de julho de 1991, exatamente quando Juazeiro comemorava 80 anos de emancipação política. Por sua participação expressiva no progresso do Juazeiro, como jornalista, radialista, publicitário, articulista, folclorista e desportista, o Governo municipal criou em 11 de março de 2013 a Comenda Dário Maia Coimbra para homenagear, anualmente, profissionais que se destacarem no jornalismo e nos esportes na Metrópole do Cariri. Como escritor, membro do Instituto Cultural do Vale Cairiense-ICVC, Darim deixou dois livros: "Os construtores do Juazeiro" e "Evocação ao Humor". Para Darim, o humor era mais importante que a inteligência e repetia Bertrand Russell: "O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas.." Por isso era um piadista militante, onde passava irradiava fina ironia e humor inteligente. Consta que, num domingo de manhã, enquanto circulava com sua Kombi fazendo propaganda volante, ao passar ao lado da Matriz de Nossa Senhora das Dores, vu o seu amigo Padre Murilo de Sá Barreto, outro bem humorado adepto da ironia socrática. Darim aproximou-se: Padre Murilo, tenho uma divida de 20 cruzeiros contraída com Quinco Carvalho, dias antes de sua morte. Estou querendo mandar celebrar uma missa e devolver o dinheiro aos familiares. Padre Murilo: "Darim com esse dinheiro você não manda celebrar nem meia missa". Darim: "Nem mal rezada, Padre?" Padre Murilo: "Nem celebrada por mim!" Leitor e admirador de Miguel de Cervantes, dele guardava essa pérola: "A formosura da alma campeia e denuncia-se na inteligência, na honestidade, no reto procedimento, na liberalidade e na boa educação" De tão animado e animador naquela reunião do Lions, na qual se prestou homenagem a um casal que estava celebrando Bodas de Ouro de união, Darim fez ironia consigo mesmo e sua esposa presente: "Sabem quando eu vou comemorar Bodas de Ouro com Cicinha - ela já começando a rir - sabem quando? Nunca. Porque antes disso, ou eu me separo dela ou eu mato ela". Gargalhada geral. Cicinha, companheira de amor e de humor, quase morreu de rir. Darim era assim. Assim era Darim! Usava o humor como oxigênio da alma. Com a mesma crença de Saint-Exupéry: "O que conduz o mundo é o espírito e não a inteligência".!

*Jota Alcides, jornalista e escritor, é autor de "Padre Cícero, O poder de Comunicação" e "Comunicação & Linguagem das Massas"-

sábado, 22 de outubro de 2016

JUAZEIRO DO MEU TEMPO. JOSÉ BOAVENTURA: VISÃO ACADÊMICA - Por Jota Alcides

Prêmio Nobel de Literatura de 1957, Albert Camus(1913-1960) foi jornalista, escritor, romancista, ensaísta, conferencista, dramaturgo e filósofo francês. Era apaixonado por futebol. Chegou a fazer parte da Seleção Universitária de Futebol da França, como goleiro e bom goleiro. Em 1949, esteve no Brasil onde veio fazer palestra e ficou impressionado com a paixão dos brasileiros pelo futebol, esporte que lhe ensinou tanto e foi tão importante em sua obra filosófica-literária: "O que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol". Isso pode ser ainda mais forte num país como o Brasil, onde o futebol, além de proporcionar entretenimento para grandes massas populares, é um fenômeno econômico: De acordo com o Plano de Modernização do Futebol Brasileiro, da Fundação Getúlio Vargas, o futebol no Brasil movimenta US$ 250 bilhões por ano, responde por 30 milhões de praticantes formais e não-formais; e por 300 mil empregos diretos. Tão apaixonados pelo futebol quanto Albert Camus, muitos radialistas brasileiros se fizeram famosos nas décadas de 1960 e 1970 como comentaristas no rádio: João Saldanha (Rio), "o comentarista que o Brasil consagrou"; Cláudio Carsughi (São Paulo) "o comentarista internacional"; Luiz Mendes (Rio),"o comentarista da palavra fácil", Sérgio Noronha (Rio), "o comentarista que a galera espera"; Armando Oliveira (Salvador), "o comentarista nº 01 do Brasil"; Rui Porto(Rio), "o comentarista de classe para todas as classes"; Barbosa Filho (São Paulo), "o comentarista que saiu do Norte para agradar o Brasil inteiro"; Mário Moraes (São Paulo), "o comentarista mais famoso do Brasil"; e Luis Cavalcante(Recife), "o comentarista da palavra abalizada". Para se manter bem informado sobre futebol no Brasil, os torcedores sabem que o veículo que melhor cobre, difunde e promove este esporte é o rádio. Destacam-se no Rio de Janeiro, Rádio Nacional, Rádio Globo e Rádio Tupi; em São Paulo, Rádio Bandeirantes, Rádio Jovem Pan e Rádio Record; em Belo Horizonte, Rádio Itatiaia; em Porto Alegre, Rádios Farroupilha, Rádio Gaúcha e Rádio Guaíba;no Recife, Rádio Jornal do Commércio e Rádio Clube de Pernambuco, em Curitiba, Rádio Clube Paranaense; e em Fortaleza, Rádio Verdes Mares. Estas emissoras são marcas registradas na história do rádio esportivo brasileiro.Na época de ouro do rádio no Cariri, pontificava o comentarista José Boaventura, da Rádio Iracema do Juazeiro, desde 1960. Boaventura tinha "inteligência visual", o que poucos comentaristas de futebol têm, algo veementemente criticado pelo genial escritor, ensaísta, romancista, dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues: "O pior cego é o míope. E pior que o míope é o que enxerga bem, mas não entende o que enxerga". Ou seja, o bom comentarista de futebol precisa ter "inteligência visual". Assim como tinha o sensacional craque holandês Johan Cruyff , um gênio dentro de campo, enxergando passes e espaços que ninguém mais enxergava: "Eu sempre jogava a bola para frente porque se eu a recebesse de volta, era o único jogador desmarcado". Formado em História e pós-graduado pela Universidade Regional do Cariri-Urca, radialista, professor universitário, escritor e técnico de futebol, membro titular do Instituto Cultural do Vale Caririense-ICVC, fundador do Instituto José Marrocos de Pesquisas e Estudos Sócio-Culturais e autor do livro "Escola Normal do Juazeiro - Uma experiência pioneira", ele usava o conhecimento para ampliar o seu capital cultural e para a transformação do meio-ambiente, inclusive o futebol e o rádio-esportivo, pela pedagogia da qualidade. Enquanto do outro lado, na Rádio Progresso do Juazeiro, o jovem Wilton Bezerra era uma promessa de bom comentarista, depois confirmada, na Rádio Iracema o José Boaventura já era um comentarista de conceito já realizado, consolidado, um ícone do radioesportivo caririense, com popularidade e credibilidade muito além do Juazeiro e do Cariri. Ex-funcionário da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, foi também professor da Universidade Estadual do Ceará(UECE). no Juazeiro. Como educador, Boaventura tinha o mesmo sentimento do ex-reitor da Universidade de Brasília, senador Cristovam Buarque: " O Brasil está entre os 8 melhores do mundo no futebol e fica triste. É 85º lugar em educação, mas não tem tristeza".Por isso Boaventura contribuiu muito para a expansão e a democratização do ensino superior no Cariri disseminando os cursos da UVA-Universidade do Vale do Acaraú para além do triãngulo JUABC (Juazeiro, Barbalha e Crato), alcançando Caririaçu, Milagres e Missão Velha. Boaventura era pós-graduado em Administração Escolar e Pesquisa Histórica e Sociológica pela Universidade Federal do Ceará e pela Universidade Estadual do Ceará. Com esse perfll intelectual e cultural, Boaventura poderia fazer sucesso em qualquer grande emissora do Rio ou São Paulo, pois reunia as principais qualidades de um bom comentarista esportivo: tenacidade (para defender corajosamente suas convicções mesmo que desagradem aos competidores); racionalidade (para não deixar se exaltar por paixões próprias ou das torcidas); imparcialidade (para garantir neutralidade nas análises dos clubes em disputa); objetividade ( para não produzir análise reducionista demais ou prolixa demais); honestidade (para exercício do caráter com absoluta fidelidade aos fatos reais dentro e fora das quatro linhas do gramado); previsibilidade (para apontar aos torcedores o caminho técnico ou tático da superação ou da vitória). Portanto, ser comentarista esportivo é um grande desafio, acrescentando-se que é um segmento do rádio bastante competitivo. Para se obter o sucesso, são necessárias uma boa formação cultural e uma grande experiência na especialidade. O comentarista precisa possuir conhecimento profundo das regras, terminologia e história do futebol e outros esportes. Detalhe: não pode parar de estudar, de buscar o crescimento intelectual, porque o mercado está em constante evolução. Além disso, Boaventura aproveitava os intervalos disponíveis para estudar ética, negócios esportivos, entretenimento esportivo e o papel social do futebol. Austero e severo consigo mesmo, além de metódico e perfeccionista, Boaventura submetia-se às exigências de professor de si próprio para subir degraus do conhecimento em busca do maior aprimoramento e de maior qualificação pessoal eprofissional. Conforme seu grande amigo e companheiro de muitos anos, o narrador esportivo Luiz Carlos de Lima, "estava no íntimo dele estudar, pesquisar, aprender e, o que era mais importante, ensinar a quantos se interessassem pelo seu saber". Foi assim, como autêntico professor e com sua vocação acadêmica, que ele deu grande contribuição para a qualificação da crônica esportiva do Cariri. Para ele, popularidade e credibilidade eram importantes, porém, tão ou mais importantes eram confiabilidade e respeitabilidade..E isso só se conquista pela qualificação, pela força do conhecimento e pelo estudo acadêmico. Afinal, a função principal do comentarista esportivo é cerebral, é pensante, é analisar e criticar. Meu professor de jornalismo na Universidade, escritor Luiz Beltrão o primeiro doutor em jornalismo no Brasil.,dizia que opinar para o jornalista, "não é apenas um direito, mas um dever, pois, de ofício, está incluído entre os que fazem profissão de opinar". Dessa forma, o comentarista deve buscar captar os fatos, valores e objetos que são de importância num jogo de futebol e o responder às preocupações dos torcedores. De preferência, tendo uma visão abrangente do futebol como fenômeno social, fenômeno cultural e fenômeno econômico.. Caririense, Boaventura era natural de Caririaçu, na Região Metropolitana do Juazeiro, a mesma cidade que deu o narrador esportivo Wilson Machado à Ceará Rádio Clube e o noticiarista Jota Alcides ao Rádio Clube de Pernambuco. Além da Rádio Iracema do Juazeiro, Boaventura foi comentarista esportivo da Rádio Progresso do Juazeiro e da Rádio Vale do Cariri, também do Juazeiro. Chegou a receber propostas para trabalhar na capital, mas nunca quis deixar Juazeiro, cidade que o acolheu generosamente e que ele amava. Pelo que atestam seus amigos mais próximos, Boaventura fez da sua vida um jogo de futebol. Só não venceu o tumor no pâncreas que lhe tirou a vida aos 65 anos de idade,em 21 de janeiro de 2005,mas enquanto viveu driblou os demais adversários, chutou as tristezas, superou os desafios, fez gols de felicidade e correu para o abraço da torcida que sempre lhe prestigiou com carinho, admiração, respeito e aplauso. Como Albert Camus, tudo que ele conquistou e tudo que aprendeu sobre valores humanos, sociais, morais e desportivos, foi graças ao futebol onde atuou por quase 50 anos sempre pautado pela correção, pela verdade e pela busca da perfeição, como determinava sua pedagogia da qualidade. Foi assim que honrou, dignificou, valorizou, promoveu e qualificou a combativa crônica esportiva caririense que tem feito história na imprensa do Ceará. Agora, seu nome é uma referência na paisagem urbana do Juazeiro: Praça José Boaventura, no bairro de Tiradentes. Ao celebrar a missa de corpo presente em 2005, seu amigo Padre Murilo Barreto,Vigário do Juazeiro, lembrou que José Boaventura foi um exemplo de pai, professor, homem de comunicação e da Igreja pois era membro do Encontro de Casais com Cristo (ECC).. Pelos seus estudos superiores, pelo seu magistério superior, por suas atividades de pesquisa histórica e sociológica e pelo seu engajamento cultural, José Boaventura chegou ao fim do jogo da vida qualificado e credenciado como comentarista de visão acadêmica, obtendo e acumulando alta credibilidade, densa popularidade, enorme confiabilidade e grande respeitabilidade. Deu prestígio, honra e glória à radiofonia cariiriense e ao rádio do Ceará. Valeu, Boaventura!

*Jota Alcides, jornalista e escritor, é autor de "Padre Cícero, O poder de Comunicação" e "Comunicação & Linguagem das Massas"-

sábado, 15 de outubro de 2016

JUAZEIRO DO MEU TEMPO. DANIEL WALKER: NOBRE MISSÃO - Por Jota Alcides

"Onde as necessidades do mundo e os seus talentos se cruzam, aí está a sua vocação". Este é o entendimento do filósofo grego Aristóteles considerando que vocação e talentos são coisas diferentes. Vocação é um chamado de Deus, um dom divino. Como descobriu a brilhante escritora ucraniana abrasileirada pernambucana, Clarice Lispector, "pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir". Já o mestre Danton Jobim, advogado, jornalista, escritor, professor e político brasileiro, diretor do lendário Diário Carioca (1928-1965), o jornal que mudou a imprensa brasileira, presidente da Associação Brasileira de Imprensa(1966-1972), Prêmio Maria Cabot de Jornalismo da Universidade de Columbia-EUA-(1952) e autor de "O Espírito do Jornalismo", dizia: "O jornalista é um profissional e basta que seja um homem honrado e sensato, segundo os padrões morais de seu tempo, para que cumpra sua missão". Tudo certo, mas para isso, é fundamental que tenha vocação. Um jornalista que não tenha formação superior em Jornalismo, mas tenha o espírito do jornalismo, pode ser muito mais jornalista do que um jornalista que tenha formação superior em Jornalismo, mas não tenha o espírito do Jornalismo. Juazeiro do Norte tem um exemplo emblemático: Daniel Walker, jornalista, radialista, pesquisador, professor, escritor, historiador, mas, acima de tudo, jornalista. No Juazeiro do Meu Tempo, anos finais da década de 1960, época de ouro do rádio no Cariri, Daniel Walker brilhou como redator e apresentador de jornal na Rádio Iracema do Juazeiro e como jornalista correspondente de "O Povo", então maior e mais importante jornal do Ceará. Nascido no Juazeiro em 6 de setembro de 1947, filho do ourives José Marques da Silva (Zeca Marques) e da professora Maria Almeida Marques, herdou do pai o senso de lapidação da notícia como uma jOia e da mãe o gosto pelo magistério. Formado em Biologia pela Urca e pós-graduado em Ciências pela UFC, Daniel Walker é dono do maior acervo de pesquisas e estudos sobre a história do Padre Cícero e Juazeiro o que lhe confere um título que ele muito aprecia: "Guardião da Memória do Juazeiro". Professor aposentado da Urca, é um dos fundadores do Instituto Jose Marrocos de Pesquisas Socio-Culturais-IPESC, que muito tem contribuído, de forma acadêmica, para o desenvolvimento cultural do Juazeiro. Culto, observador, pesquisador, escritor e professor, Daniel Walker parece um cientista, até fisicamente, desses de laboratório, mas, na verdade, ele usa, criativa e inteligentemente, a metodologia, a objetividade, a imparcialidade e a racionalidade da Ciência, onde tem sua formação superior, a serviço do jornalismo que é sua verdadeira vocação. Começou sua carreira jornalística, em 1964, redigindo e apresentando noticiário, na Amplificadora Domingos Sávio, que funcionava, internamente, no Colégio Salesiano do Juazeiro. Com ele, na amplificadora, os amigos Vital Tavares, Wellington Amorim, José Marques Filho, Jussier Cunha e Renato Casimiro. Logo em seguida, passou a atuar no Saci-Serviço de Altofalantes Cícerópolis no centro da cidade. Já no ano seguinte, 1965, convidado , pelo diretor da Rádio Iracema do Juazeiro, Coelho Alves, ingressou na emissora pioneira da cidade, onde ficou até 1971: "Minha maior glória no rádio foi ter redigido e apresentado, com Coelho Alves, o Grande Jornal Sonoro Iracema" e atuado ao lado de Alceli Sobreira, Maciel Silva, Aguinaldo Carlos e Geraldo Batista", confessa. Paralelamente ao trabalho no rádio, foi Redator-Chefe do jornal "Tribuna do Juazeiro", fundado pelo jornalista Aldemir Sobreira, e correspondente do jornal O Povo, de Fortaleza, de 1965 a 1972, quando ganhou muito prestígio na sociedade do Juazeiro e do Cariri: "Foi minha glória jornalística", resume com saudade do tempo em que éramos saudavelmente arrastados pelos ventos dos sonhos. Em 1984, realizou seu sonho de ser dono de uma emissora de rádio. Ao lado de Coelho Alves, Cícero Antônio, Francisco Silva Lima e Adauto Bezerra Junior, inaugurou a Rádio Transcariri-FM, a primeira emissora FM do interior do Ceará., hoje Radio Tempo, denominação que não significa nada para o povo do Juazeiro. Então, como Secretário de Redação da antiga EBN-Empresa Brasileira de Notícias, eu tinha relações institucionais e de amizade com Rubens Furtado, Secretario de Radiodifusao do Ministério das Comunicações, e dei minha forcinha para que esse sonho se realizasse. Com satisfação, compareci à inauguração da emissora, em 21 de abril de 1984, um momento de grande alegria para o Juazeiro. Como escritor, Daniel Walker é autor de vários livros sobre Padre Cícero e Juazeiro, entre eles Sabedoria do Padre Cícero, História da Independência de Juazeiro do Norte, O Pensamento vivo de Padre Cícero e Padre Cícero na Berlinda. Em todas essas atividades, Daniel Walker sempre demonstrou, claramente, possuir o espírito do jornalismo de Danton Jobim, atuando com habilidade, sensibilidade, criatividade, sagacidade, instinto, isenção, inteligência, humanismo, ética, competência, honestidade e responsabilidade. Carrega consigo uma carga preciosa de formação cultural e de formação moral, adquirida no Colégio Salesiano do Juazeiro, onde estudou de 1961 e 1964, tempo do inesquecível diretor Padre Gino Moratelli, que parecia mais um afável reitor. Lá passou os melhores momentos de sua vida estudantil, acumulando conhecimento num ambiente saudável de muita alegria, afeição, criatividade, companheirismo, confraternização e emoção. Para seu amigo de mais de 50 anos, professor e pesquisador Renato Casimiro, Daniel Walker é "um exemplo de personalidade irretocável". Com a chegada da Internet e das novas tecnologias de informação e comunicação, Daniel Walker tornou-se criador do primeiro jornal eletrônico de Juazeiro, o Juaonline, fundado em 2004. Depois de completar 250 edições, o jornal virou o Portal de Juazeiro (www.portaldejuazeiro.com), até hoje um dos mais importantes sites noticiosos da região do Cariri. É um jornalista nato, por vocação. É formado em Biologia, que estuda a vida humana enquanto existência, mas sua praia, onde nada de braçadas, é mesmo o Jornalismo, que estuda a vida humana, enquanto convivência. Para se alcançar o sucesso profissional no jornalismo é preciso exercê-lo com vocação, caráter, ética, talento, esforço, disciplina e dedicação. Daniel Walker reúne isso tudo e segue o mandamento que está numa frase do genial Gabriel Garcia Marquez: "A ética deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro". Nesse sentido, é recomendável às novas gerações do Juazeiro que desejam seguir o caminho do Jornalismo, agora que existe o Curso de Jornalismo na Universidade Federal do Cariri(UFCA), no Juazeiro, que só o façam se tiverem vocação. Quem usa o Jornalismo para ganhar dinheiro, adquirir riqueza, não faz jornalismo, faz picaretagem e disso também há exemplo no Juazeiro, infelizmente. Picaretagem não é jornalismo, é picaretagem. E picaretagem não tem a companhia do besouro da ética. Portanto, em primeiro lugar vocação, porque mais do que profissão, o jornalismo é vocação. Sou jornalista formado na Universidade Católica de Pernambuco e pós-graduado pela Universidade de Brasília, estou chegando aos 50 anos de carreira, já ocupei cargos diretivos importantes em grandes empresas de comunicação do Brasil (Rede Globo, Jornal do Commércio, do Recife, e Correio Braziliense, de Brasília), e posso garantir-lhes que a força motriz de tudo é, o tempo todo, minha vocação, que descobri aos 12 anos fazendo jornais murais como estudante salesiano. Quando se faz Jornalismo por vocação, faz-se não por obrigação, mas por diletantismo, condição básica para a realização pessoal e profissional. O sentido obrigatório tira o prazer, a ausência de prazer trava a criatividade, a falta de criatividade bloqueia a dedicação, e a falta de dedicação impede a chegada ao sucesso. Eficiência, competência e experiência são importantes, mas somente a vocação gera resolução, dedicação, comando e liderança para o jornalista ser diferenciado. O modelo empresarial do jornalismo está mudando por causa da WEB e das novas tecnologias. Paradoxalmente, enquanto o jornalismo tradicional está quebrado ou quebrando pelos custos altíssimos e pela queda da receita publicitária, nunca na história da humanidade as pessoas consumiram tantas notícias. Uma coisa essencial do jornalismo, porém, não muda: vocação com sentido de missão. Assim sendo, sigam o exemplo de Daniel Walker, que descobriu cedo sua verdadeira vocação e atendeu ao seu chamado fervorosa e generosamente cruzando seus talentos com as necessidades do Juazeiro, sempre sob a bandeira do diletantismo.. Ganhou o sucesso inevitável, pois como já proclamou o jornalista, editor, escritor, filantropo, abolicionista, cientista e diplomata estadunidense Benjamim Franklin, "aquele que tem uma profissão tem um bem; aquele que tem uma vocação tem um cargo de proveito e honra". Daniel Walker acreditou na sua vocação como um dom irrevogável de Deus sendo extremamente fiel à sua missão e contribuindo inquestionavelmente para o enriquecimento, o prestígio e a grandeza da história da imprensa no Cariri. Desse modo, realizou o seu próprio destino de felicidade, questão de honra ao mérito. Afinal, Daniel é a prova de que jornalismo não é profissão, é vocação. E a missão de Deus para cada um está escrita na vocação. No caso do Jornalismo, a missão principal é reproduzir e interpretar a realidade, induzir e promover intenções, disseminar ideias, cultivar ideais, preservar valores e mudar comportamentos, influenciando o metabolismo social e contribuindo para a transformação e o desenvolvimento da sociedade. É uma missão amplamente nobre e apaixonante. E Daniel Walker tem vivido ao longo dos últimos 51 anos esse Espírito do Jornalismo, cruzando seus talentos com as necessidades do Juazeiro, assim obtendo reconhecido sucesso e merecido aplauso, pelo seu saber histórico, como historiador do passado e professor de história do presente fazendo a história do futuro. Parabéns!. .

*Jota Alcides, jornalista e escritor, é autor de "Padre Cícero, O poder de Comunicação" e "Comunicação & Linguagem das Massas"-


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

JUAZEIRO DO MEU TEMPO: PROGRAMA A FACE DO MISTÉRIO - Por Jota Alcides

Ninguém pode subestimar o medo porque o medo fascina, sobretudo se tiver a força do mistério. O medo é capaz de levar os medrosos à transformação de pensamentos fantasiosos em fatos fabulosos. Como dizia Albert Einstein, "a mais bela coisa que podemos vivenciar é o mistério. Ele é a fonte de qualquer arte verdadeira e qualquer ciência. Aquele que desconhece esta emoção, aquele que não pára mais para pensar e não se fascina, está como morto: seus olhos estão fechados".Eis o argumento que pode ter gerado,sustentado e promovido o programa de maior audiência na história da radiofonia caririense. "A partir de agora, se você não tem nervos bons, desligue o rádio e vá dormir". Com este alerta preventivo e provocativo, assim começava o programa "A Face do Mistério", toda terça-feira à noite na Rádio Progresso do Juazeiro, nos anos dourados ao final da década de 1960.. Era uma audiência monstruosa, graças ao nível alto de assombração. Dirigido pelo jornalista e dramaturgo Menezes Barbosa, o programa era aguardado com ansiedade até a sua apresentação. Juazeiro inteiro parava diante do rádio em atenção e tensão acompanhando as peripécias e maldades do monstro. Nessa atração do gênero rádio-teatro, Menezes Barbosa exercitava com desenvoltura sua experiência e sua criatividade de dramaturgo que vinha evoluindo desde o tempo em que estudava no Liceu Cearense, em Fortaleza, últimos anos da década de 1930. Sua aptidão para o teatro era tão forte que, ao deixar o Liceu Cearense voltando para Juazeiro, a primeira coisa que fez na sua cidade foi criar o grupo Teatro-Escola do Juazeiro. Esse grupo fez um show memorável com a participação da excelente atriz juazeirense Albertina Marquise Branca, que morava no Rio de Janeiro onde tinha importante presença no circuito artístico e hoje é nome de teatro no Juazeiro. Cada vez mais entusiasmado com a dramaturgia, Menezes Barbosa resolveu inserir o teatro na programação da Rádio Progresso do Juazeiro. Elenco de "A Face Ministério" era mais ou menos fixo. O principal papel, o de monstro, horripilante e aterrorizante, era de João Barbosa, gerente comercial da emissora, figura humana maravilhosa, brimcalhona, bonachona, sempre de bem com a vida. João Barbosa adorava assustar os ouvintes, seu saco de maldades estava sempre cheio. Com perfil humano totalmente ao contrário do perfil de monstro, João Barbosa surpreendia se transformando em criatura perversa e cruel que parecia ter saído das profundas de uma caverna de horrores. Ou então feito um animal bizarro como um lobisomem, desses que fazem parte das lendas urbanas. João Sobreira e Wilton Bezerra, versáteis, faziam papéis variados de acordo com os episódios. Isabel Lavor era a mocinha dos gritos de horror que deixava audiência arrepiada. Aguinaldo Carlos fazia a "alma penada". José Hermano, responsável técnico da rádio, era "o cavalo da meia noite", relinchando melhor do que muitos cavalos e deixando o elenco de respiração presa contendo as gargalhadas. Além do desempenho formidável do elenco, chamava a atenção a sonoplastia do programa com seus efeitos especiais improvisados. Exemplos: o próprio Menezes Barbosa batia tamancos sobre a mesa do estúdio imitando os passos de um cavalo. Ou então balançava um pedaço de folha de zinco para fazer o barulho de chuva e de trovões. O que não faltava era imaginação. Menezes Barbosa, sozinho, já tinha criatividade para encher vários teatros com histórias de grande atração e ainda contava com a ajuda do elenco que tinha prazer em dar as mais absurdas sugestões. "A Face do Mistério" era uma peça semanal. Com seu talento crativo e sua sensibilidade, Menezes Barbosa fazia a Rádio Progresso reviver os anos dourados do radio-teatro brasileiro, nas décadas de 1940 e 1950,sobretudo na Rádio Nacional do Rio, onde brilhava o escritor Dias Gomes. Naquele tempo, os programas costumavam ter os nomes dos patrocinadores. O primeiro foi o Grande Teatro De Millus. Depois, passou a chama-se Grande Teatro Orniex, fabricante dos lustra-móveis Shell. "Os Miseráveis", "O Homem que ri",. "Madame Bovary", "O retrato de Doryan Grey", "A dama das camélias", "O corcunda de Notre Dame", "O morro dos ventos uivantes" e muitos outros títulos fizeram o sucesso do Grande Teatro de Dias Gomes, que durou quase duas décadas. Outro grande sucesso na Rádio Nacional foi o Teatro de Mistério que ficou no ar durante anos líder de audiência no Brasil inteiro. Na Rádio Progresso do Juazeiro, como quase todos os barulhos de "A Face do Mistério" tinham origem na mesa do estúdio, ela é quem mais sofria levando porradas que se transformavam em efeitos especiais com impacto de assombração e medo. Para os ouvintes, era assombração, para os participantes do elenco era diversão. "Era bom demais", testemunha Aguinaldo Carlos, que caprichava ao extremo no seu papel de alma penada. Ao final do programa, todos saiam felizes, rindo e comentando a performance de cada um. Hermano, por sua imitação de cavalo muito próxima da autenticidade, figura humilde e generosa, divertia-se com a própria cavalice e prometia que no próximo programa iria relinchar melhor.Já o brincalhão João Barbosa comemorava seu desempenho como monstro: "Conheci uma senhora, dona Violeta, que assiste o programa toda semana morrendo de medo. Disse-me que na hora do monstro corre para junto do seu oratório onde fica rezando e tremendo. Fica batendo o queixo, quanto mais treme mais reza, quanto mais reza mais treme. E mesmo depois que o programa acaba, o medo continua e a tremura também. Eita povo para gostar de assombração..."(risos). Durante a semana, Menezes Barbosa recebia dezenas de cartas de ouvintes contando "causos" reais de fantasmas, assombrações, estranhas criaturas e almas penadas. Garantiam os ouvintes que eram histórias verdadeiras, fatos verídicos, experiências reais do além, coisas de espíritos e do sobrenatural. Quem não já ouviu falar numa mulher misteriosa e fantasmagórica sem olhos vagando numa estrada deserta à noite pedindo carona? Pois bem, em respeito a todos os ouvintes que tinham tido alguma experiência sobrenatural, Menezes Barbosa fazia uma seleção dos "causos" potencialmente mais assustadores e lhes dava um tratamento romanceado e dramático. Não inventava nada, apenas aumentava um pouquinho. Em seus textos de cada episódio, ele não economizava pesadelos, dores ,medos, assombrações, fantasmas, silêncios, segredos, suspense, gritos, choros e ranger de dentes. Com esses ingredientes, o programa tinha altíssima popularidade. O ápice da confusão era quando o monstro , Joao Barbosa, partia para o ataque fatal à mocinha que ficava aos gritos pedindo socorro, provocando apreensão e desespero entre os ouvintes. Fora do estúdio, com os colegas da emissora, Joao Barbosa, com seu tino comercial aguçado, elogiava o irmão e deixava um recado insinuante: "Geraldo descobriu um negócio da China, que mexe com todo mundo, mexe com Juazeiro inteiro. É calafrio geral...Só falta agora a gente saber como ganhar dinheiro com esse negócio...Talvez vendendo calmantes!" (risos). Paradoxalmente, quanto mais a Rádio Progresso alertava os ouvintes sem bons nervos para que não assistissem "A Face do Mistério", mais aumentava a audiência do programa mal-assombrado. Assim era Juazeiro do Meu Tempo, onde o povo muito religioso por influência do Padre Cícero ficava, no mínimo,desconfiado de seres sinistros e embruscados com sua influência diabólica ainda que estivessem apenas na imaginação de uma produção radiofônica. Com sua aptidão psicológica, Menezes Barbosa sabia que a arrepiação de fantasmas que se escondem entre sombras e silhuetas mexe com o imaginário popular. Nessa época, tínhamos nas ondas do rádio no Juazeiro,, um mestre do suspense, um mestre do terror, um mestre da assombração explorando dramaturgicamente "A Face do Mistério" e causando "frenesi" , como Alfred Hitchcock no cinema. Era arte pura, teatro ao vivo, um programa para ser exibido em qualquer das grandes emissoras brasileiras com êxito garantido. Se fosse numa rádio de Nova Iorque seria, com certeza, um estrondoso sucesso popular. Basta lembrar a façanha do cineasta norte-americano Orson Welles (1915-1985), escritor, produtor e diretor teatral: Era uma noite normal de 30 de outubro de 1938, até que a rádio CBS de Nova Iorque interrompeu sua programação musical e anunciou. em edição extraordinária, uma invasão de marcianos. A notícia se espalhou feito rastilho de pólvora. Milhares de americanos, aterrorizados, fugiram de suas casas procurando um abrigo mais seguro, enquanto outros mihares ficaram ao pé do rádio morrendo de medo.Na verdade, era o começo de uma peça de radioteatro de Orson Welles que ajudou a CBS a bater a emissora concorrente, NBC, e desencadeou pânico geral nos Estados Unidos. Episódio conhecido como "Guerra dos Mundos", com a falsa invasão dos marcianos, durou apenas uma hora, mas marcou definitivamente a história mundial do rádio. No Juazeiro do final da década de 1960, toda terça-feira à noite, ficava todo mundo morrendo de medo, mas ninguém desligava o rádio para não perder nada de "A Face do Mistério", que marcou a história da radiofonia caririrnse. Era todo mundo ligado, mesmo com medo de o monstro aparecer em casa...Mais do que isso só o soluço das almas penadas com o dramaturgo fenomenal Garcia Lorca, cheio de razão: "todas as coisas têm seu mistério". Quase 50 anos depois, "A Face do Mistério" ainda é um programa lembradíssimo no Cariri: "Se você tem nervos fracos, desligue o rádio e vá dormir.." Vixe Maria!.

*Jota Alcides, jornalista e escritor, é autor de "Padre Cícero, O poder de Comunicação" e "Padre Cícero segundo Mestre Athayde".-

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

JUAZEIRO DO MEU TEMPO: Lourival Marques, gênio do rádio - Por Jota Alcides

Maior cidade do interior do Ceará, Juazeiro do Norte tem duas estações geradoras de televisão e oito emissoras de rádio. É o maior centro de radiodifusão do interior cearense. Na época de ouro do rádio no Cariri, finais dos anos 1960, Juazeiro brilhou com grandes nomes da radiofonia, inclusive exportando alguns valores para várias capitais: Carlúcio Pereira (Radio Sociedade da Bahia e Rádio Cruzeiro da Bahia); Jota Alcides (Rádio Clube de Pernambuco e Rádio Capibaribe do Recife), João Sobreira (Rádio Clube de Goiânia e Rádio Universitária de Goiânia), Wilton Bezerra (Rádio Uirapuru de Fortaleza e Rádio Verdes Mares de Fortaleza). Antes destes, Juazeiro já tinha exportado para São Paulo um radialista completo, Alceli Sobreira (Rádio Piratininga de São Paulo e Rádio Eldorado de São Pulo). Mas, essa história de Juazeiro exportar talentos radiofônicos começou bem antes, lá atrás, nos anos 1940. Quem abriu as portas do mercado radiofônico brasileiro para Juazeiro foi Lourival Marques que se celebrizou como Diretor Artístico da Rádio Nacional do Rio de Janeiro e inscreveu seu nome entre os maiores vultos da radiofonia do País. Filho do jornalista Sebastião Marques dos Santos e Maria da Conceição Marques, Lourival Marques de Melo nasceu no Juazeiro em 15 de novembro de 1915., Ainda muito jovem teve dois momentos importantes com Padre Cícero, o fundador do Juazeiro: aluno da professora Amália Xavier, no Grupo Escolar, no fim do ano 1929 recebeu certificado do Curso Primário,em solenidade presidida pelo Padre Cícero. Em 1934, com 19 anos, testemunhou a multidão chorando a morte do Padre Cícero e escreveu uma crônica vigorosa: "Quando cheguei à janela tive a impressão de que alguma coisa monstruosa sucedia na cidade. Que espetáculo horroroso, esse de milhares de pessoas alucinadas, correndo pelas ruas afora, chorando, gritando, arrepelando-se... Foi então que se soube... O Padre Cícero falecera... Eu, sem ser fanático, senti uma vontade louca de chorar, de sair aos gritos, como toda aquela gente, em direção à casa desse homem, que não teve igual em bondade e nem teve igual em ser caluniado. Um caudal de mais de 40 mil pessoas atropelava-se, esmagava-se na ânsia de chegar à casa do reverendo... O povo, uma onda enorme, invadiu tudo, derrubando quem se interpôs de permeio, quebrando portas, passando por cima de tudo. Pediu-se reforço à polícia, mas o delegado recusou, alegando que o Padre era do povo e continuava a ser do povo". Lourival Marques, juazeirense, começou sua carreira radiofônica em 1937 como um dos fundadores do Centro Regional de Publicidade, rede de 18 alto-falantes em Juazeiro do Norte, primeira difusora de notícias, comerciais e de utilidade publica da região do Cariri. Seis anos depois, em 1943, deixou Aderson Braz em seu lugar e foi trabalhar em Fortaleza, na Ceará Radio Clube, então primeira e única emissora de rádio no Estado. Sua passagem pela PRE-9 foi discreta, sem chance para demonstrar . seu grande talento. Como era muito criativo e produtivo, resolveu ir para o Rio de Janeiro em 1945.. Ingressou na famosa PRA-9 Rádio Mayrink Veiga, onde lançou seu primeiro programa no Rio "Recordações em Desfile", em 1945, e depois na Rádio Globo, onde produziu e apresentou o programa "Cenas Brasileiras". Já nessa época, o cronista Alziro Zarur o destacou em sua página no jornal A Noite: "Esse Lourival Marques é uma avis rara da radiolândia carioca". Nessas duas emissoras, produziu mais de 20 programas. Depois, foi para a Rádio Nacional PRE-8. Quando Lourival Marques entrou em 15 de agosto de 1950, na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, instalada num edifício de 22 andares na Praça Mauá, foi que se deu conta do gigantismo da então principal emissora do Brasil em comparação à modesta Ceará Rádio Clube: nove diretores, 240 funcionários administrativos, dez maestros, 33 locutores, 124 músicos, 55 radiatores, 39 radiatrizes, 52 cantores, 44 cantoras, dezoito produtores, um fotógrafo, 13 informantes, cinco repórteres, 24 redatores e quatro secretários de redação. Era uma indústria, uma fábrica de sonhos. Sentiu que tinha chegado ao seu lugar. Passou a fazer parte de um timaço dos melhores produtores de programas e de peças de radioteatro do Brasl que se tornaram grandes sucessos: "Coisas do Arco da Velha", de Floriano Faissal; "Gente que brilha" e "Nada além de 2 minutos", de Paulo Roberto; "Clube das donas de casa", de Lourival Marques; "Grande espetáculo Brahma", de Mario Meira Guimarães; "Hoje tem espetáculo", de Paulo Gracindo; "Música e beleza", de Roberto Faissal; "Nova Historia do Rio pela música" e "Recolhendo o folclore", de Almirante; "Passatempo Gessy", de Jota Rui; "Rádiosemana", de Hélio do Soveral; "Roteiro 21", de Dinarte Armando; "Seu criado, Superflit", de Lourival Marques e "Todos cantam sua terra", de Dias Gomes, "A vida que a gente leva" e "Boa tarde, madame", com Lucia Helena; "Consultório sentimental", com Helena Sangirardi; "Edifício Balança mas não cai", com Paulo Gracindo; "Grande Teatro De Millus", com Dias Gomes; "Jararaca e Ratinho", com Joe Lester; "Marlene, meu bem", com Mário Lago; "Os grandes amores da História", com Saint Clair Lopes; "Sabe da última?", com Rui Amaral e "Tancredo e Trancado", com Giuseppe Ghiaroni. Com o imenso sucesso de suas produções, virou Diretor Artístico da Rádio Nacional.O cast da emissora estava repleto de astros e estrelas da música brasileira: Orlando Silva, Ataulfo Alves, Carlos Galhardo, Linda Batista, Luiz Gonzaga, Carmen Costa, Nelson Gonçalves, Paulo Tapajós, Albertinho Fortuna, Carmélia Alves, Luiz Vieira, Zezé Gonzaga, Gilberto Milfont, Heleninha Costa, Ademilde Fonseca, Nora Ney, Jorge Goulart, Neuza Maria, Adelaide Chiozzo, Jorge Fernandes, Dolores Duran, Lenita Bruno, Carminha Mascarenhas. Em 1951, Lourival Marques criou e lançou na Radio Nacional o programa que fez o maior sucesso até 1966: "Seu Criado, Obrigado". Sua secretária, Dayse Lúcidi, depois famosa disck-joquei, lia as perguntas dos ouvintes feitas por cartas, e o locutor César Ladeira, a mais bela voz do rádio brasileiro, apresentava as respostas com grande respeito, carinho e atenção. Foi um dos programas de maior audiência na história do rádio brasileiro. Com o enorme sucesso, atendendo aos pedidos dos ouvintes, Lourival publicou em 1.963 o livro "Seu Criado, Obrigado", com nomes e endereços dos ouvintes, suas perguntas e as devidas respostas. Homem de pesquisa, possuia uma enorme biblioteca onde colecionava jornais e revistas nacionais e estrangeiros que usava no apoio aos seus programas. Para aprimorar suas produções chegou a fazer estágio em rádio nos Estados Unidos. Além de "Seu Criado, Obrigado", Lourival Marques criou e lançou vários outros programas que se tornaram grandes atrações na Rádio Nacional: "Bahia dos meus amores", "A musica e o Dia", "Gente que faz a gente cantar","Radio Revista", "Dicionário dos Extremos", "Brasil pais dos mil Ritmos","Em cima do Fato", "Clube das donas de Casa". Mais programas de grande sucesso de Lourival Marques: Os locutores Jorge Cury e Reinaldo Costa anunciavam: "A Canção da Lembrança é um progrrama de Lourival Marques para Phimatosan, o tônico poderoso".. Era um dos mais lindos programas noturnos da Nacional, de extremo bom gosto. Sobre isso, ele declarou em 12 de outubro de 1948 em enrevista à Noite Ilustrada: O programa "Cenas Brasileiras", na Radio Globo, foi muito importante para mim porque foi o primeiro encontro com uma coisa chamada Phimatozan, o patrocinador. Eles gostaram tanto de mim que mais tarde, muito mais tarde, quando eu passei para a Radio Nacional, eles foram me procurar e me deram um programa que mantive durante muito tempo, que foi "A Canção da Lembrança". Constava de um glamuroso bate-papo entre um casal que ficava recordando músicas de filmes antigos. O casal lembrava e falava sobre um filme e sua canção-tema. Então, vinha a música, com um cantor ao vivo à frente de uma grande orquestra. Lourival era dono de um invejável arquivo musical. Outros programas que Lourival Maques escreveu com muito brlho foram 'Radio Almanaque Kolynos" e "Um milhão de Melodias". Em 1976, Lourival Marques escreveu o programa comemorativo dos 40 anos de história e de sucesso da Rádio Nacional. Usou uma série de entrevistas que ele fez com os mais famosos produtores, escritores, atores e locutores da Rádio Nacional na Era de Ouro do Rádio brasileiro. É um documento para a história. Ele escrevia muito. Ele próprio revelou no livro "Seu Criado, Obrigado" que escrevia, mensalmente, cerca de 500 páginas de programas para o rádio.Com tanta abrangência e influência que o cronista Rubem Braga chegou a declarar: "O povo brasileiro fala a língua da Rádio Nacional". Todos os programas criados ou escritos por Lourival Marques eram considerados um brinde à inteligência. Lourival Marques não tinha vícios. Seu vício era o trabalho. Não fumava e gostava de escrever durante o dia. Curiosamente, não ouvia seus programas. Casado com Maria Landim Marques, Lourival Marques teve duas filhas: Rosa Jaqueline e Carolina Landim. Deixou a Rádio Nacional em 01 de julho de 1978. Ficou morando no Rio, mas caiu no Vale dos Esquecidos. Entrou em depressão e passou seus últimos anos de vida em auto-reclusão. Morreu em data desconhecida. Até por sua ex-secretária Dayse Lúcidi. Nenhum jornal deu. Por mais incrível que pareça, nem a Rádio Nacional sabe. Apesar desse final insólito, Lourival Marques foi um gênio genial. Grande orgulho do Juazeiro na gloriosa história do rádio brasileiro.






*Jota Alcides, jornalista e escritor, é autor de "PRA-8 O Rádio no Brasil" e "O Último Repórter Esso".-


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Juazeiro do meu tempo: Wellington Amorim: diamante verde - Por Jota Alcides

Um dos maiores escritores de todos os tempos, Léon Tolstói (1828-1910), genial intelectual russo, de família nobre ligada aos Czares, dizia que "o amigo de verdade desenvolve a felicidade e reduz o sofrimento, duplicando nossa alegria e dividindo a nossa dor, pois a alegria de fazer o bem é sua única felicidade verdadeira". Por isso, o amigo de verdade merece uma consideração infinita, é eterno e a gente nunca esquece. Como Wellington Amorim, radialista brilhante do Juazeiro do Meu tempo, anos dourados do final da década de 1960. Foi locutor, redator, narrador e disck-joquei, com admirável desempenho, destacando-se nas paradas da Jovem-Guarda. Começou na Rádio Iracema em 1964 e em 1967 passou para a Rádio Progresso, onde seu programa mais prazeroso era o descontraído "Batendo Bola", com as últimas notícias e fofocas do futebol juazeirense. Como morreu precocemente e não deixou os registros mais palpitantes de sua vida, sinto-me no dever, na condição de seu grande e fraternal amigo, de transmitir aos que o conheceram ou ouvem sempre falar dele, algumas marcas de sua personalidade, de suas preferências, de suas aspirações e dos seus sonhos. Por isso, desejo compartilhar alguns momentos que vivemos juntos solitariamente, outros solidariamente, mas sempre fraternalmente e quase sempre descontraidamente. Refletem um pouco do seu perfil humano e profissional. Wellington Amorim era apaixonado pelo rádio. Para ele, o trabalho na Rádio Progresso do Juazeiro, como locutor, disck-joquei, apresentador de programas esportivos, não era trabalho, era lazer. Com a vantagem que ainda era pago. Passava o dia inteiro na rádio. Sua mãe, dona Assunção, entre feliz aprovação e sutil reclamação, falava baixinho com suave sorriso e uma pontinha de ciúme: "A casa dele é a Rádio Progresso. É lá que está a vida dele". Com certeza, ele não suportaria viver fora do rádio, não viveria, seria um peixe fora dágua. Além de dedicar respeito, admiração, fidelidade e lealdade ao Vigário do Juazeiro e do Nordeste, Wellington adorava o jeito carinhoso do Padre Murilo de Sá Barreto ao tratar os animais. Depois de uma visitinha que eu e ele fizemos ao vigário, na volta para a Rádio Progresso, atravessando a Praça Padre Cícero, Wellington brincou: "Cara, eu queria ser um gato de estimação do Padre Murilo porque, além de receber as visitas com cafezinho e sequilho na mesa paroquial, ainda teria respeitados todos os meus direitos humanos"(risos). Wellington amava os Beatles, sobretudo John Lennon e Paul McCartney, exercendo uma verdadeira devoção aos garotos de Liverpool que conquistaram o mundo Após uma farra jovem da noite boêmia do Juazeiro, no final de 1969, voltávamos os dois descendo a pés (ainda não tínhamos carro), pela Rua São Pedro, deserta, silenciosa, nem parecia a Rua São Pedro. Quando chegamos no cruzamento com a Rua Alencar Peixoto, uma ideia: "Vamos imitar os Beatles na travessia da Abbey Road em Liverpool" Ele foi na frente, eu atrás. Ao final: - "Sem a faixa de pedestres, ficou meio sem graça, né?!". - Teria sido melhor com Aguinaldo e Sobreira. - Aí teria sido pra posteridade! (risos). E seguimos cantarolando Yesterday como se fôssemos dois Beatles perdidos na noite do Juazeiro, felizes. Não precisávamos de razões para viver, apenas de pretextos. Wellington era muito agregador, parece que curtia o ideal de Platão: "o que importa não é viver, mas viver bem". Cultivava amizades com todos da Radio Progresso, mas, comigo, era um amigo de verdade, denso e intenso. E a minha reciprocidade era total e verdadeira. De formação religiosa salesiana, como eu, Wellington era devoto do Padre Cícero, discreto mas devoto. De vez em quando lembrava uma frase episódica do Padre Cícero especialmente relacionada ao Juazeiro, com suas palavras:"Esta cidade ainda vai crescer muito, para espanto de muita gente". Para ele, Padre Cícero era o melhor prefeito do Juazeiro mesmo depois de morto porque em seu nome muitas coisas estavam acontecendo e muitos melhoramentos chegando como provas de sua força poderosa em favor da cidade.Sempre que se referia ao Padre Cícero usava a mesma expressão: "O homem é forte". Defensor ardoroso do Juazeiro, Wellington, às vezes, vibrava mais do que eu com minhas matérias sobre a cidade no Diário de Pernambuco, o mais antigo da América Latina; "Cara, você está prestando um grande serviço ao Juazeiro, mais do que muitos políticos. Padre Cícero um dia vai lhe pagar. Não sei como, mas ele vê tudo que a gente faz aqui por sua cidade amada. Pode crer!". Wellington Amorim tinha um grande desejo em relação ao futuro: "Meu sonho é chegar aos 80 anos e ver Juazeiro transformado na verdadeira Capital do Cariri, para calar a boca de um monte de gente besta da vizinhança". Wellington gostava do Juazeiro inteiro, mesmo dos lugares mais pobres, mas ele tinha o foco principal na Praça Padre Cícero, não só por sua linda história, mas também por ser o centro de referência e convergência da cidade, que ali se encontrava desfilando sua vida, sua beleza, seus sonhos e suas alegrias.Um grande desejo profissional de Wellington: entrevistar o craque Pelé, Rei do Futebol Mundial. Conseguiu em 03 de abril de 1974 quando Pelé esteve no Juazeiro com o Santos. Jogou e venceu um combinado do Juazeiro por 2 X 0 no Romeirão. Foi,para ele, um dia de êxtase, de realização, de felicidade, um golaço. Nesse tempo eu era Editor-Chefe da Rede |Globo Nordeste.Coincidentemente, quando o Santos, voltando do Juazeiro, passou pelo Recife, Pelé me concedeu uma entrevista exclusiva no Hotel São Domingos (então o hotel dos times de futebol), anunciando ter recebido convite para participar de um filme sobre KugFu. Saiu no Jornal Nacional. Wellington tinha um carinho especial pelo Colégio Salesiano do Juazeiro, onde estudou e teve o privilégio de conviver com o diretor Padre Gino Moratelli que deixou na cidade sua marca de célebre educador da congregação de Dom Bosco. "Meu tempo no Salesiano foi bom demais, jamais vou esquecer. Os professores, os jogos, os colegas, as festas, o desfile de Sete deSetembro, os shows de teatro, os passeios, os recreios... tudo era uma maravilha. O que lá aprendi é para o resto da vida". Wellington era fascinado pelo Mercado Central do Juazeiro pois sentia nele a cidade viva e ativa,como formigueiro humano, diariamente mostrando sua operosidade e sua capacidade de reinventar-se para novas conquistas, sobretudo de visitantes. De vez em quando me chamava para lhe fazer companhia até lá onde tinha uma banquinha com uma guloseima que adorávamos: quebra-queixo. Éramos tão amigos de verdade que chegamos a paquerar a mesma menina, uma linda de nome Val, filha de próspero comerciante do Juazeiro. Ela gostava de passar pela rua Santa Luzia, porque era a "rua do broadcasting". Ficávamos na janela da Rádio Progresso olhando, sorrindo e piscando para a belezura em desfile. E a patricinha correspondia. Sabíamos que não tínhamos chance, mas não custava nada tentar e fantasiar. Não éramos pés-de-poeira, mas éramos plebeus. Deu em nada. De família simples, Wellington era simples, mas sempre elegante e de gosto seletivo, mantendo boa aparência para agradar a mulherada que o cercava como um galã do meio artístico. Divertia-se com esse assédio: "Minha despedida de solteiro vai ser na Quadra João Cornélio lotada dessas meninas, vai ser uma Festa de Arromba"(risos). Muito romântico e paquerador, mas centrado e prudente nas suas relações afetivas, renunciou às dezenas de garotas que o desejavam como parceiro e acabou encantado por um moça de boa família de Missão Velha, Região Metropolitana do Juazeiro, discreta, inteligente, bonita, carinhosa e companheira, chamada Maninha, com quem casou e constituiu família. Quando eu vinha ao Juazeiro, ele fazia questão de me convidar para almoçar na sua casa na rua da Boa Vista, centro da cidade. Na Copa do Mundo de 1982, na Espanha, eu estava no Juazeiro. Assisti os jogos do Brasil com ele na casa dele. Depois da administração municipal histórica do prefeito Mauro Sampaio, Wellington queria ver o médico Manoel Salviano seguindo os mesmos passos pelo progresso do Juazeiro. Engajou-se na campanha de 1983. Criou e lançou no rádio uma propaganda subliminar para o período sem autorização da legislação eleitoral: "Salve Ano 83" que sonoramente se ouvia "Salviano 83". Salviano foi eleito, Wellington virou assessor de imprensa municipal e foi nessa condição que morreu em 22 de outubro de 1984, com apenas 36 anos de idade, vítima de um aneurisma cerebral.Foi-se 44 anos antes da idade que pretendia alcançar e ver Juazeiro como Capital do Cariri. Vale para ele o que disse Homero nas palavras de Penélope: "Curta é a vida humana, mas quem vive sem mácula praticando ações irrepreensíveis é apregoado como pessoa do bem".Se ser amigo de verdade é relacionar-se com outro usando palavras de afeição, compreensão, estímulo, sabedoria e vibração, nunca de desconsideração, desaprovação ou desmotivação, então eu e Wellington Amorim fomos amigos de verdade,algo semelhante ao diamante verde cristalino: raro, valioso e eterno. Valeu amigo, irmão, camarada!. Saudade! .

*Jota Alcides, jornalista e escritor, é autor de "PRA-8 O Rádio no Brasil" e "O Último Repórter Esso".-